Pinto da Costa, por Marinho Neves

Começou no FC Porto nos anos 60 como dirigente do andebol, passando depois pelo hóquei em patins e pelo boxe. Nessa altura era um simples gerente de uma empresa de fogões.
Chegaria a chefe do departamento de futebol apenas no final da década de 70, no mandato de Américo de Sá. Tomou o poder e impôs a sua lei. Foi gerente de uma empresa chamada Pincor
do ramo das tintas, que terminou os seus desgraçados dias com avultadas dividas á banca.
Aliás como todas as empresas onde se meteu. Algumas de electrodomésticos. Todas faliram.
Devido ás muitas falcatruas que fez, incluindo passar cheques sem cobertura, foi condenado e proibido de passar cheques e de constituir empresas. Para deixar a empresa onde trabalhava, Pinto da Costa ainda teve que pagar sete mil contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos das transferências de Futre e Rui Barros tinha desaparecido sem deixar rastos e tinha deixado de...rastos PC, a contas com a justiça, por cheques sem cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu o presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Esteve sem ir a Aveiro durante 5 anos por causa de alguns processos por falências fraudulentas.
Os seus sócios dessas empresas tiveram que fugir para o Brasil. Mas a ele alguém lhe pagou as dívidas. Alguns poderosos do Norte, como Belmiro de Azevedo, Artur Santos Silva, etc. No princípio chegou a investir muito do dinheiro que tirava do FC Porto, nas empresas de familiares seus mas faliram todas. Depois passou a ficar com tudo. Criou a Cosmos, agência de viagens que lucrou imenso com as viagens dos clubes, obteve exclusivos com a Federação que obrigavam os clubes a viajar nessa agência. Esteve metido no negócio da droga, com Luciano D´ Onofrio(Aveiro Connection). Com a Olivedesportos fez muito dinheiro, como com todos os negócios do FC Porto, vendas e compras de jogadores, corrupção de árbitros, etc. Assim enriqueceu e tem hoje uma considerável fortuna.
Estudou num seminário, onde desde novo mostrou as capacidades que hoje lhe são reconhecidas. Pinto da Costa passou a sua idade escolar num colégio onde imperava um grande influência da religião católica e quando atingiu o liceu foi internado num colégio de padres(Jesuíta). Dos mais prestigiados do Norte do País. Ali fabricavam-se verdadeiros homens. Eram testados como cobaias para poderem enfrentar no futuro as mais adversas contrariedades da vida. Uma das disciplinas era constituída pela defesa individual de cada aluno perante toda a turma e, já nessa altura Pinto da Costa era o mais desenvolto no uso no discurso, na sua capacidade de raciocínio rápido e retenção na memória de dados essenciais.
Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta, bem cedo começou a demonstrar um grande sentido de chefia. Sabia como dividir para reinar, utilizando um ar cândido e descomprometido quando algumas atitudes de má-fé lhe eram dirigidas. Atirava a pedra e sabia como esconder a mão. Mas a sua verdadeira arma era a grande capacidade de trabalho e a completa dedicação a tudo o que fazia. Chegou a pensar ordenar-se padre, e o director do colégio apostava que , se ele seguisse essa carreira, iríamos ter o segundo papa português. A sua postura, a sua forma de falar e de estar deram-lhe sempre um toque clerical. A mesma mão que abençoava os amigos, empunhava a cruz onde ele havia de crucificá-los. Cativava, fazia amizades com facilidade e sabia como as utilizar e destruir como se nunca tivesse culpa de nada.
Sendo religioso não pensava sequer em trair a sua esposa. Mas quando foi iniciado por Reinaldo Teles nas suas casas de sexo, tomou-lhe o gosto. Ficou viciado. Aliás a sua actual mulher, da qual tem uma filha, é uma ex-prostituta que conheceu num dos bares de Reinaldo Teles. Também usou anfetaminas durante algum tempo. Para aguentar as vitórias, o fanatismo anti-mouros, a idolatria que os adeptos do clube lhe devotavam, a guerra que os seus inimigos lhe moviam e as sessões diárias de sexo era preciso muito "speed".

1998 - Golpe de Estádio, de Marinho Neves - Editor: Terramar

O caso Deco ou o caso da "bota"

Exclusivo Correio da Manhã - 16-04-2007
As pressões exercidas para que Deco, jogador do FC Porto, não fosse punido no caso que ficou conhecido como o da ‘bota’ – um incidente ocorrido no final de Outubro de 2003, num jogo Boavista-FC Porto, arbitrado por Paulo Paraty – podem ser conhecidas através da leitura das escutas telefónicas no âmbito do processo ‘Apito Dourado’. As transcrições estão anexas ao processo e sustentam uma das certidões que se mantém em investigação no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) do Porto. Pinto da Costa e Valentim Loureiro estão indiciados por tráfico de influências. Mas as conversas envolvem muitos outros intervenientes. Designadamente, Antero Henriques e Adelino Caldeira, dirigentes portistas, e também Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e Pinto de Sousa, dirigente da arbitragem.

Punido inicialmente com três jogos de suspensão, o castigo foi diminuído para dois, por intervenção da Federação. Pinto da Costa tinha falado dias antes com Gilberto Madaíl, alertando-o de que Deco ameaçava não jogar pela Selecção e não representar Portugal no europeu.

Nas mesmas escutas anexas ao inquérito ‘Apito Dourado’, pode ainda ler-se uma conversa de Pinto da Costa com Pinto de Sousa onde o dirigente da arbitragem garante ao líder portista que já falara com o árbitro Paulo Paraty. O receio de ambos era que o relatório falasse de uma agressão, mas Pinto de Sousa deixa Pinto da Costa descansado: “Eu dá-me a ideia de que não vai utilizar a expressão agressão, de modo nenhum!”

Para as autoridades, este caso assumiu especial gravidade por se tratar de um dos principais jogadores. Deco era uma peça fundamental na equipa que meses depois se sagrou campeã europeia e foi também um dos atletas cuja transferência rendeu uma mais elevada maquia para os cofres do clube.

Estas escutas são anteriores ao caso Mourinho, que o CM noticiou na edição de ontem, mas fazem parte da mesma investigação. Na certidão enviada para o DIAP do Porto, Carlos Teixeira, magistrado de Gondomar, alertou ainda para a alegada promiscuidade com os magistrados que presidiam os órgãos disciplinares da Liga. Mais uma vez, o nome dos juízes foi referido nas escutas.

LEIA TUDO SOBRE O QUE ELES DISSERAM NAS ESCUTAS

VALENTIM LOUREIRO

“O gajo diz que atirou ostensivamente a bota ao árbitro”

Pinto da Costa sabe que o delegado da Liga escreveu que se tratou de uma agressão. Telefona a Valentim Loureiro a protestar pelo teor do relatório.

Pinto da Costa (PC) - Estou?

Valentim Loureiro (VL) - Então, ilustre presidente!

PC - Como?

VL - dono do prédio das Antas!

PC - Já sei!

VL - Fala o inquilino! Está tudo bem ou quê?

PC - Olhe não está nada tudo bem, que lá o delegado da Liga é um filho da puta!

VL - Quem é o gajo?

PC - É

VL - Eu não sei, nem sei quem foi O sr. Óscar!

PC - É mas é um o gajo é mentira! Eu estive a ver as imagens

VL - Ah, já?

PC - o gajo atira ostensivamente bota para o chão e o gajo diz que o atingiu atirou ostensivamente a bota ao árbitro e que o atingiu, o que não é verdade! VL - Mas o árbitro mas o árbitro também não diz qualquer coisa disso?

PC - Não, o árbitro diz que lhe lançou lançou a em direcção a ele a bota (...) agora, o outro é que diz que atirou ostensivamente, o que é mentira! ( ) Ó pá, é fodido ser expulso injustamente

VL - Eu percebo, eu percebo.

PC - e reage, pá!, que o gajo é que lhe tira a bota o gajo diz: “Saltou-lhe a bota.”

VL - Mas, ó Jorge, você veja veja aí com os seus serviços como as coisas poderiam conduzir-se para minorar os efeitos, pá ponha aí alguém a estudar isso, pá!

PC - Pois, isso já estão!

VL - a estudar isso porque a estudar essa merda porque é esta coisa e que vem nos jornais é estúpido.

PC - Aquele Paraty Paraty é uma merda! Nem

VL - Ó pá uma merda

PC - não tem categoria para um jogo daqueles!

VL - Sim, não o gajo ali chegava, matava a jogada e tal

PC - Já sabe quem saiu para a Taça?

VL - Quem?

PC - Porto-Boavista! ( )

VL - Lá vai o Boavista descansar, caralho. Foda-se!, o caralho!

PINTO DA COSTA

Pinto da Costa fala com Pinto de Sousa sobre o relatório de Paraty. Que já garantira ao presidente da arbitragem que não iria utilizar a expressão “agressão”.

Pinto de Sousa (PS) - Olha, é o seguinte (...)

Já falámos portanto, eu dá-me ideia que não vai utilizar a expressão “agressão”, de modo nenhum!... portanto, ele até disse, muito contritamente: “Não, eu não sou vilão!” e, portanto, não vai utilizar a frase portanto, será o comportamento incorrecto, etc., etc., pronto!, e isso foi o e até, inclusivamente, ele disse: “Já estou estou a ser convocado pelo Conselho de Disciplina ” até podias dizer ao Adelino Caldeira que ele vai ser ouvido pela Comissão Disciplinar da Liga ( ) Não convém dizer nada só nós é que sabemos, não é?

PC - Claro, claro!

PS - ( ) Agora, ficaria bem, pá, ouve lá!, e ajudava muito, vê lá se podias fazer isso, pá, que alguém do FC Porto, talvez o Reinaldo Teles e o Deco telefonarem a pedir desculpa, pá! ( ) vês algum inconveniente nisso?

PC - O Reinaldo não vejo problema (...)

PS - E o Deco! E o Deco!

PC - Ó!, muito menos! Ah, ah, ah!

PS - Porquê?

PC - Mas foi ele que deu a ideia, não?

PS - Foi ele que deu a ideia, pá ( ) Pelo menos podiam pedir-lhe desculpa, não é?

PC - Mas ele, quem?

PS - Ele! Ele, Paraty!, como é evidente!

ADELINO CALDEIRA

Adelino Caldeira telefona a Pinto da Costa a dar-lhe conta da punição que será aplicada a Deco.

Adelino Caldeira (AC) - Olhe, não comente até segunda-feira se não eles apanham o meu informador!... mas deu três jogos!

Pinto da Costa (PC) - Está bem era o que calculava, não é?

AC - Não, calculava dois e estava com medo dos gajos, porque os gajos realmente são uns cabrões, pá! Agravaram em um até mandou proposta para o instrutor! Para nós é igual porque ele não jogar no Marítimo é igual mas é uma filha da putice destes gajos! Ainda gozaram lá com a situação, os cabrões!

DECO

Pinto da Costa fala com Deco e combina que o jogador deverá ameaçar que não joga na Selecção. Só assim poderá atemorizar a Federação para que diminua o castigo.

Pinto da Costa (PC) - Estou!

Deco (D) - Sim.

PC - Estou! É presidente! (...) Estou-te a falar pelo seguinte amanhã, como sabes nós metemos o recurso do teu castigo, não é? (...) e vai sair naquela coisa do “Pato”

D - Hum

PC - uma coisa a dizer do género de: “Pode estourar uma bomba ofendido com o que foi dito aquele termo de “indigno” e o castigo”.

D - Hum.

PC - e tal... “Pode estourar uma bomba, que é possível que o Deco, desgostoso com a perseguição ” – dentro daquilo que tu dissestes hoje!

D - Sim, sim

PC - “ofendido com a perseguição que lhe está a ser feita, se calhar, vai pedir dispensa de jogar no no na Selecção ou no Europeu” uma coisa assim, estás a perceber?

D - Hum, hum!

PC - que é como forma de pressão para

D - Hum, hum

PC - para o Conselho! Portanto, se amanhã alguém te perguntar se isso é verdade, se não é, o que pensas, tu dizes: “Desculpe, sobre isto não falo nem uma palavra! Na altura própria, eu eu direi ”

ANTERO HENRIQUES

Pinto da Costa recebe uma chamada de Antero Rodrigues, que já está a par da pressão exercida sobre a Federação e comenta a ameaça de Deco não jogar.

PC - Sim?

A - Presidente, bom dia!

PC - Então?

A - Esta do “Pato”, do Deco vou-lhe dizer uma coisa, pá!... eu sabia que o presidente era um génio mas esta!, foda-se!

PC - Como é que vem?

A - Vem espectacular, pá!

PC - Como é que está?

A - Acho que é uma chantagem fantástica!...

GILBERTO MADAÍL

Pinto da Costa recebe uma chamada de Gilberto Madaíl e faz a mesma ameaça. Diz que Deco admite abandonar a Selecção por causa do castigo da Liga.

Pinto da Costa (PC) - Estou?

Gilberto Madaíl (GM) - Como é que está o meu amigo?

PC - Óóó, oó!, então? ( )

PC - Olhe, eu preciso de falar com o meu amigo, mas tem tempo (...) é só depois do Real Madrid. O Deco vai tomar uma posição sobre a Selecção

GM - Ai é? Hum

PC - é! Porque aquilo é muito grave o que foi dito, nós já temos a informação de que quem escreveu aquilo foi o próprio presidente do Conselho de Disciplina e entendo que se não houver uma reparação, se ele é indigno, não deve jogar pela Selecção!... (...)

GM - Mas o presidente do Conselho de Disciplina já escreveu?

PC - escreveu no relatório no acórdão, quando foi castigado ( ) ele diz que se não houver uma reparação, seja de quem for, ou da Federação a desmarcar-se do

GM - Não, tem que ser!

PC - daquilo, ele ele, depois do Real Madrid vai pedir escusa da Selecção!

GM - Hum presidente, eu vou ver isso obrigadinho por me ter avisado!

VALENTIM LOUREIRO

A Federação diminui o castigo a Deco e Pinto da Costa telefona a Valentim Loureiro a dar-lhe conta disso.

PC - Estou, sr. Major! Como está?

VL - Então como é que vai o meu amigo? Está na Madeira, cara no bananal!

PC - Então mais uma mais uma vez desautorizados !

VL - Em quê?

PC - No Deco! Baixou de três para dois!

VL - Já se sabia, carago!

PC - Já se sabia? Mas é uma esses gajos não têm vergonha, caralho!, se tivessem vergonha.

VL - Ó Jorge!

PC - Eu vou eu vou sabe o que é que vou dizer?

VL - Ó você vai dizer!

PC - “É é pena que para ser juiz não seja preciso ter vergonha!”

VL - Ó não diga isso.

PC - Eles depois que me processem!

VL - Hum, não diga isso, pá! As várias instâncias podem sempre ( ) os tribunais é a mesma coisa! Você não viu agora o caso do Ritto e da Rita e dessa gente toda.

PC - Ó ó Major, o que é engraçado é que é sempre é sempre do

VL - Enquanto, enquanto lá estiver o Mortágua, é assim, pá!

PC - É e enquanto estiver o Cebola

VL - é a resposta é a resposta que eles podem dar, pá!

PC - É ?

VL - É!

PC - Então que “deiam”! Que “deiam”! ( )

PC - Major, Major!

VL - Diga!

PC - mas você, um dia vamos os três Eu, você e o Mortágua e depois o Mortágua conta-lhe coisas!

VL - Óptimo! Pronto ! Se ele me contar, pá sei lá! Sei lá disso! Mas quê?!, do Gomes da Silva?

PC - O pior de todos é um tal Cebola

VL - O Cebola... mas eu nem sei quem ele é o Cebola eu só conheço este gajo e um rapaz agora novo, que apareceu de Famalicão ou não sei quê!, pá!... substituiu um outro gajo que foi para Timor ou para o caralho, pá! De resto, nem os conheço, pá! Cebola ?!... Cebola, até cheira mal, pá! Cebola

PC - É de Coimbra! É um gajo de Coimbra

VL - Não sei quem é! E e e é quê? do Benfica?

PC - Não sei o que é! Sei que é o mais anti-Porto possível! Isto dito pelo Mortágua!

RELATÓRIO DO DELEGADO (Pinto da Costa)

“O delegado da Liga é um filho da puta. (...) Diz que o atingiu. Atirou ostensivamente a bola ao árbitro... E que o atingiu, o que não é verdade.”

POSIÇÃO DO ÁRBITRO (Pinto de Sousa)

“Já falámos. (...) Eu dá-me a ideia de que não vai utilizar a expressão agressão, de modo nenhum! (...) será o comportamento incorrecto.”

DECO AMEAÇA NÃO JOGAR

“Se calhar vai pedir dispensa de jogar no Europeu. (...) É uma forma de pressão para o Conselho. Portanto, se amanhã alguém te perguntar se isso é verdade, se não é, o que pensas, tu dizes: ‘Desculpe, sobre isso não falo nem um a palavra. Na altura própria eu... eu direi’.”

CASTIGO DE DECO DESCE DE TRÊS PARA DOIS JOGOS

“Mais uma vez desautorizados. (...) No Deco, baixou de três para dois! Sabe o que eu vou dizer? (...) É pena que para se ser juiz não seja preciso ter vergonha.”

NOTAS

DECO FOI PARA BARCELONA

Deco saiu do FC Porto no final da época 2003/2004, quando o clube se sagrou campeão europeu. Nos últimos anos, foi um dos mais rentáveis negócios dos azuis-e-brancos.

15 MILHÕES EM CAIXA

O acordo com o Barcelona, oficializado a 6 de Julho de 2004, estabeleceu o pagamento de 15 milhões e a aquisição dos direitos desportivos do jogador Ricardo Quaresma.

AGRESSÃO DAVA SUSPENSÃO

A agressão ao árbitro poderia ser punida com vários meses de suspensão. Dois anos antes, um caso semelhante tivera como interveniente João Pinto, durante o Mundial da Coreia/Japão.

JOGADOR FUNDAMENTAL

Na época 2003/2004 o FC Porto ganhou os mais importantes títulos nacionais e europeus. A participação de Deco era fundamental para alcançar os objectivos portistas.

JUIZ NEGA PEDIDOS

O juiz António Mortágua assegurou ontem ao CM que nem ele nem qualquer um dos seus dois filhos “tem ou teve qualquer contrato de trabalho” celebrado com a Câmara Municipal de Gondomar.

Tânia Laranjo

O caso Mourinho

Exclusivo Correio da Manhã - 15-04-2007
As escutas telefónicas anexas ao processo ‘Apito Dourado’ entre dirigentes do FC Porto indiciam que José Mourinho insultou mesmo Rui Jorge, dizendo que gostava que o jogador do Sporting tivesse morrido em campo e que lhe terá rasgado a camisola após o encontro entre portistas e verde-e-brancos, realizado no dia 31 de Janeiro de 2004.

As conversas mantidas entre os dirigentes portistas depois do encontro de Alvalade e as pressões exercidas junto da Liga para que Mourinho não fosse castigado revelam ainda que os factos seriam pelo menos do conhecimento de Pinto da Costa, Antero Henriques (actual número dois da SAD portista) e Adelino Caldeira (administrador da mesma SAD). As transcrições mostram os dias que se seguiram aos incidentes, até ao desfecho do caso que terminou com a suspensão do treinador por dez dias e aplicação de uma multa de três mil euros. Um castigo ‘leve’, atendendo ao que havia sido admitido como possível pelos dirigentes portistas.

Para pressionar Valentim Loureiro, Pinto da Costa chegou mesmo a simular uma ‘rebelião’ de jogadores que ameaçavam não jogar na Luz, reunião que nunca terá existido e que foi apelidada por Pinto da Costa numa conversa com Adelino Caldeira como sendo uma “tanga”. O mesmo termo (“tanga”) foi ainda usado por Antero Henriques para qualificar a história que teria de ser inventada pelos dirigentes do FC Porto sobre os acontecimentos à entrada dos balneários em Alvalade.

Durante dias, os dirigentes desdobraram-se em conversas e a punição da Comissão Disciplinar da Liga acabou por ser bastante inferior ao que os próprios admitiram.

Adelino Caldeira também pediu a Pinto da Costa que alguém abordasse o delegado da Liga, para que aquele alterasse o que havia escrito no relatório.

LEIA TUDO O QUE ELES DISSERAM NAS ESCUTAS

PINTO DA COSTA

Horas depois do caso Mourinho, Antero Henriques, dirigente da SAD, prepara com Pinto da Costa as primeiras explicações para negar os insultos de Mourinho e o caso da camisola rasgada.

Antero Luís (A) - Foda-se! Não dormi um caralho! Estou com uma enxaqueca, pá.

Pinto da Costa (PC) - Filhos da puta.... [...] Tínhamos morto esta merda ontem [...]

A - Embora eu ache que o Mourinho, no final, também se exaltou muito!

PC - É, um bocado.

A - É! Aquela história de dizer que o Rui Jorge morreu em campo e...

PC - Ele disse aonde?

A - Ele diz que disse cá em baixo, disse cá em baixo, junto a... quando estava a malta toda ali! Mas eu liguei para a ‘Bola’ e para o ‘Jogo’ a desmentir! A dizer que ele estava a dizer que era mentira!

PC - Não, não! Não... não é desmentir! A gente tem é de processar o gajo que diz! [...]

A - É... e em relação à camisola, também tem de se arranjar ali uma tanga, presidente!

PC - Arranjar que ele foi provocar para a porta do balneário!

A - É. E que o Mourinho disse que: “Esta camisola é indigna de ser trocada. Porque se a tivesse rasgado não a mandava outra vez para o balneário do Sporting.” [...] É! Temos de arranjar aí uma tanga, senão saímos por baixo desta merda toda.

PC - Mas já falou com o Mourinho, não?

A - Não, não, não. Vou agora com ele ver o Rio Ave, agora, às quatro horas!

PC - É... mas diga-lhe, é pá! Ele que não preste dec... diga-lhe só...

A - Não, por isso é que vou com ele! Por isso é que vou com ele!

PC - E amanhã é um processo-crime contra...

A - É...

PC - Esse Bettencourt e os jornais carago!

A - É que esse gajo é mesmo um cobarde!

VALENTIM LOUREIRO

No dia 2 de Fevereiro, Pinto da Costa toma conhecimento de que Mourinho terá um processo disciplinar e que não haverá qualquer processo contra Liedson, jogador do Sporting, que alegadamente teria agredido Jorge Costa. Zangado, liga para Valentim Loureiro a pedir explicações.

Valentim Loureiro (VL) - Estou!

Pinto da Costa (PC) - Sr. presidente, como está?

VL - Ilustre amigo!

PC - Eu estou um bocado fodido com o meu amigo!

VL - Comigo?

PC - Então! Eu falo-lhe no Liedson... o Liedson não apanha nada, põe um processo disciplinar ao Mourinho!!!

VL - Isso ainda não está decidido, pois não?

PC - Está! Então! O processo disciplinar

VL - Eu cheguei agora à Liga [...] Como é que você sabe?

PC - Oh...

VL - Foi algum comunicado?

PC - Estou a dizer-lhe! Processo disciplinar ao Mourinho!

VL - Ó pá, desconheço isso em absoluto! Cheguei agora!

PC - E ao Liedson nada! [...] Vai um gajo à televisão dizer que o Paulino, que o Paulino que é um atrasado mental disse uma coisa e pronto! E o treinador tem um processo disciplinar!

VL - Jorge, eu vou ver isso, está bem?

PC - Está!

ADELINO CALDEIRA

Quatro horas depois de ter falado com Valentim, Pinto da Costa recebe um telefonema de Adelino Caldeira, também administrador da SAD, que já conhecia o relatório do árbitro.

Pinto da Costa (PC) - Estou?

Adelino Caldeira (AC) - Estive a ver o relatório, pá... ali há uma coisa complicada! O... aquele cabrão de Braga, o Paulino, sabe quem é?

PC - Sim, sim...

AC - O gajo escreve que viu! A história da camisola! [...] É o que ele escreve, presidente!

PC - Oh!

AC - Pois, está bem! Agora, ó presidente, das duas uma: ou se arranja alguém que chegue ao pé do gajo, que o gajo vá dizer que não viu mas que lhe foram contar... ou se o gajo mantém essa versão no relatório, no mínimo uma semana, no mínimo!

PC - É um filho da puta! [...] Quem se dá.... quem se dá bem com ele é o Zé Mário!

AC - Ó presidente, quer que eu fale com ele?

PC - O Zé. Eu falo com o Zé Mário!

AC - É que... atenção! Ou o gajo chega lá... o gajo, o gajo não chega lá a dizer que viu! Porque ele... porque ele, depois diz a seguir: e quanto à afirmação veio contar-me o Bettencourt! Portanto!

PC - Ah!

AC - ...o que se presume que ele viu! Agora o que ele pode dizer – como está lá escrito no relatório! – “Não, a mim também me contaram!”

PC - Pois.

AC - Ó pá! É tão simples quanto isso! É que se não aquilo dá um mês de pena mínima, no caso dos treinadores é reduzido para 25 por cento!... é pá, que dá um mínimo de uma semana... [...] Não tem hipótese nenhuma mas... ó pá, pode dar e depois e... estes cabrões ... pode dar sempre duas a três semanas. E se eles derem por exemplo três meses – por causa do passado do Mourinho! – ou quatro... 25 por cento é um mês não é? [...]

PC - É... mas eu falo com ele amanhã.

PINTO DA COSTA

No dia seguinte, 4 de Fevereiro, Pinto da Costa e Antero falam logo pela manhã. Antero Henriques está preocupado com Mourinho que entende não ter recebido a necessária solidariedade dos dirigentes portistas.

Pinto da Costa (PC) - Estou!

Antero Henriques (A) - Devia ir a Gaia, que o gajo está todo atrofiado!

PC - Porquê? Lá por causa...

A - Estive agora a falar com ele, diz que não sente da parte do clube... uma defesa que vai... que vai... vai avançar sozinho!

PC - Não sente, da parte do clube?

A - Não!

PC - Uma grande defesa???

A - Disse-lhe: “Ó pá, isso não tem jeito nenhum!” ...diz: “Ó pá, mas pronto! Não, não sinto uma solidariedade pá... as pessoas vão dizer que... pá... pede desculpa ao Sporting” e o caralho... [...]

PC - Não! Nós já ontem pusemos uma coisa no site...

A - Eu sei, eu sei, eu sei. Mas ó presidente, eu acho que devíamos ir com uma queixa-crime para cima do delegado da Liga se fosse possível!

PC - Isso é a minha ideia!

A - Se fosse possível... falar com o Adelino, se é tecnicamente possível... Avançar já com essa merda!

VALENTIM LOUREIRO

Minutos depois de terminar a conversa, Pinto da Costa telefona a Valentim e ameaça que os jogadores não vão à Luz se Mourinho for punido. A intenção no entanto nunca existiu, como se comprova em outros telefonemas.

Pinto da Costa (PC) - Eu precisava de falar consigo porque isto está a tomar proporções que vai dar uma bronca do carago!

Valentim Loureiro (VL) - Então?

PC - Eu estou aqui no centro de estágio... e os jogadores estão reunidos...

VL - Hum...

PC - e querem faltar ao jogo da Luz!

VL - Faltar?

PC - Sim...

VL - Oh!

PC - Perdem os três pontos, não há problema!

VL - Oh, oh, oh.

PC - Não querem e o Mourinho vai processar judicialmente o delegado da Liga! Já entregou a um advogado!

VL - Hum... Você vem para baixo?

PC - Eu... eu estou aqui, estou a falar com eles... estão reunidos [...] Depois vou para a torre das Antas!

VL - Então ligue-me, lá para o meio-dia.

ANTERO HENRIQUES

O actual número dois do Porto depois de se reunir com José Mourinho liga a Pinto da Costa a contar-lhe o estado de espírito do treinador. Por sua vez, Pinto da Costa relata a Antero a conversa com Valentim e conta-lhe que disse que os jogadores ameaçavam não ir à Luz.

Pinto da Costa (PC) - Esteve com o homem?

Antero (A) - [...] Ele está um bocado atrofiado... mas ó presidente, ele também é incoerente, percebe? [...] Como é que correu com o Major, presidente?

PC - Ó pá, disse-lhe que havia a bomba de podermos dia 14 .... faltar! Ele entrou em pânico ... e eu disse-lhe: “Ó Major, eu sei que não adianta nada, mas pelo menos, olhe, vamos ter a oportunidade de dizer ao mundo do futebol porque é que temos de fazer isto!”

ADELINO CALDEIRA

Terminado o telefonema com Antero, Pinto da Costa telefona a Adelino Caldeira e conta-lhe da ameaça de não jogarem com o Benfica. Ao administrador da SAD, Pinto da Costa diz que aquilo não passou de uma tanga e que serviu para assustar Valentim. Caldeira promete ligar depois ao Major a meter “veneno” sobre a mesma matéria. E no dia seguinte volta a ligar a Pinto da Costa porque já “conseguira” mudar o relatório do observador.

Adelino Caldeira (AC) -Ameaçou com o Estádio do Benfica?

Pinto da Costa (PC) - Exacto, fiz uma tanga quando estava a falar com ele, de modo que o gajo ficou em pânico. [...]

AC - O relatório, segundo o relatório, diz claramente que não viu nada... e que foi só o Bettencourt que lhe contou tudo o que escreveu! Portanto melhor que isto é impossível!

PC - É impossível, está bem! [...]

AC - Portanto o relatório limpa tudo completamente, OK?

PC - OK.

AC - Diz exactamente isso. Claro que o gajo vai ser sacrificado, se calhar vai ter de lhe deitar a mão, mas também o gajo foi um filho da puta, escreveu primeiro portanto... que se lixe, né?

GOMES DA SILVA

Adelino Caldeira diz a Pinto da Costa que falou com o juiz Gomes da Silva, da Comissão Disciplinar da Liga, porque Mourinho só podia ser ouvido após ter recebido a nota de culpa.

Adelino Caldeira (AC)- Antes do sr. ligar pedi uma chamada para o Gomes da Silva. Foi combinado entre mim, o dr. Gomes da Silva e o Major que o sr. José Mourinho só seria ouvido depois de receber a nota de culpa. Porque eu quero que ele seja acusado só naquele artigo que dá multa, que foi o que nós combinámos.

FRASES

ANTERO HENRIQUES: INCIDENTES DESMENTIDOS AOS JORNAIS

“Ele disse cá em baixo, junto a.... quando estava a malta toda. Mas eu já liguei para a ‘Bola’ e para o ‘Jogo’ a desmentir! A dizer que era mentira!”

CALDEIRA QUER MUDAR DEPOIMENTO

“Ou se arranja alguém que chegue ao pé do gajo, que o gajo vá dizer que não viu mas que lhe vieram contar [...] ou se o gajo mantém a versão é uma semana no mínimo.”

PINTO DA COSTA: AMEAÇA DE BOICOTE NA LUZ

“Fiz uma tanga [os jogadores não irem jogar à Luz] quando estava a falar com ele de modo que o gajo [Valentim] ficou em pânico.”

J. BETTENCOURT: RELATÓRIO FOI MUDADO

“O relatório limpa tudo [...] diz claramente que não viu nada... e que foi só o Bettencourt que lhe contou tudo o que escreveu! Melhor era impossível.”

GOMES DA SILVA: COMBINAR COM JUIZ DATA DA AUDIÇÃO

“Foi combinado entre mim, o dr. Gomes da Silva e o Major que o sr. José Mourinho só seria ouvido depois de receber a nota de culpa. [...] Foi isso o que nós combinámos”

NOTAS

INQUÉRITO EM CURSO

Carlos Teixeira, procurador de Gondomar, considerou que as escutas que o CM divulga hoje configuravam suspeitas do crime de tráfico de influências. O inquérito ainda está a correr.

CONDUTA VIOLADORA

A Comissão Disciplinar da Liga concluiu que os incidentes em Alvalade eram reveladores de “conduta violadora de deveres elementares”. Mourinho foi castigado com dez dias de suspensão.

CONSCIÊNCIA

Os elementos da CD Liga concluem ainda que o técnico do FC Porto, José Mourinho, agiu com “consciência da ilicitude” e “censurabilidade da sua conduta”.

JUIZ NEGA EMPREGO

António Mortágua, um dos juízes apanhado nas escutas do ‘Apito Dourado’, negou ontem ao CM que o filho tenha alguma vez trabalhado na Câmara de Gondomar.

CAMISOLA RASGADA

O Relatório da Comissão Disciplinar da Liga deu como provado que o roupeiro do FC Porto regressou do balneário portista com uma camisola do Sporting rasgada.

Tânia Laranjo
Joaquim Gomes

As conversas proibidas

Exclusivo Correio da Manhã - 18-04-2007
As escutas do ‘Apito Dourado’, anexas ao processo em investigação, mostram Pinto da Costa a conversar com frequência com Pinto de Sousa, combinando os árbitros que iriam dirigir os jogos da Taça.

Revelam também que o dirigente portista – que ontem completou 25 anos sobre a data em que pela primeira vez foi eleito presidente do FC Porto – sabia antecipadamente os castigos dos seus atletas (nas edições de domingo e segunda-feira o CM já tinha revelado que Pinto da Costa soube antecipadamente dos castigos a aplicar a Deco e Mourinho) e mostram também o presidente portista a conversar com Pinto de Sousa sobre as classificações dos árbitros.

Nem todas as escutas que hoje revelamos deram origem a inquéritos autónomos, mas todas foram usadas por Carlos Teixeira, o magistrado de Gondomar responsável pelo inquérito, para demonstrar o poder de Pinto da Costa no mundo do futebol.

Um poder relacionado com os 45 anos que leva como dirigente do FC Porto em várias modalidades, mas desde 1976 sempre ligado ao futebol, primeiro como chefe do departamento de futebol e depois como presidente do clube, a partir de 1982.

Só entre 1980 (ano do chamado ‘Verão Quente’ portista) e 1982 Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, que completará 70 anos no próximo dia 28 de Dezembro, esteve afastado do clube, mas não do futebol pois nesse período continuou a ter muitos contactos com jogadores e treinadores, nomeadamente José Maria Pedroto.

José António Pinto de Sousa, que aparece nas escutas como presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, era um dos vários amigos de juventude que também fizeram carreira no desporto. Esta é aliás uma das justificações que tem apresentado nos vários interrogatórios a que foi sujeito para justificar a aparente familiaridade com o dirigente.

VALENTIM PEDIU PARA SER OUVIDO

Valentim Loureiro foi ouvido na semana passada pelo Ministério Público do Porto, a seu pedido. O ex-presidente da Liga respondeu no âmbito da acusação relacionada com o jogo Naval 1.º de Maio-Chaves e que envolve também o árbitro Paulo Baptista, da 1.ª categoria.

A inquirição de Valentim Loureiro foi então requerida pela defesa que pretendeu demonstrar não ser verdadeira a tese do Ministério Público. Em causa está um contacto com o árbitro de Portalegre que Valentim assegura não ter como objectivo beneficiar o clube da Figueira da Foz. Recorde-se ainda que neste processo já foram arquivadas as suspeitas relativas a Aprígio Santos, presidente do Nacional, e também Júlio Mouco, ex-vogal da Comissão de Arbitragem.

ADELINO CALDEIRA
23/12/2003

Pinto da Costa recebe uma chamada de Adelino Caldeira, administrador da SAD azul-e-branca. Mais uma vez, o dirigente portista consegue saber por antecipação qual vai ser o castigo que a Comissão Disciplinar vai aplicar a um determinado atleta.

Pinto da Costa (PC) – Estou.

Adelino Caldeira (AC) – Estou! Presidente?

PC – Sim...

AC – Adelino Caldeira. Como está?

PC – Tudo bem?

AC – Tudo bem, está tudo bem. Olhe o que lhe vou dizer agora é para si mesmo!

PC – Sim, sim.

AC – Só pode dizer ao Mourinho, a mais ninguém! [...] É assim, o McCarthy vai ser despenalizado por um jogo! [...] Portanto, vai poder jogar no próximo. Mas atenção que não se pode saber porque a reunião só vai ser na terça-feira! Foi tomada a decisão hoje, de baixarem um jogo, mas a decisão formal, o acórdão, só pode ser redigido na terça-feira e formalmente é só na terça-feira que é decidido.

PC – Não, eu nem ao Mourinho digo.

AC – Pronto, é só para lhe dizer... se não eles podem voltar atrás [...] Terça-feira fica espantado, pronto!

PINTO DE SOUSA
03/02/2004

Pinto da Costa e Pinto de Sousa conversam sobre as incidências do jogo Sporting-FC Porto (onde se verificou depois o incidente da camisola alegadamente rasgada a Rui Jorge por José Mourinho) e falam de Lucílio Baptista, o árbitro que apitou aquele jogo. Pinto da Costa não poupa críticas ao juiz do jogo.

Pinto da Costa (PC) – O sr. Lucílio Baptista acha que é um penálti, porque é um vigarista!

Pinto de Sousa (PS) – É!

PC – Aliás. Estava tão comprometido.

PS – Sim...

PC – Estava tão comprometido,que os meus jogadores chamaram-lhe tudo, de filho da puta para cima e ele ria-se deles. Estás a perceber?

PS – Também não achas que ia expulsar aquela malta toda. Estragava o jogo, não é?

PC – Não, se ele estivesse de consciência tranquila, expulsava carago! Agora, foi de filho da puta para cima. ‘És um vigarista, és um filho da puta’!

PS – Até se vê na televisão.

PC – O gajo só se ria. Chamaram-lhe de tudo, filho da puta, gatuno, ladrão, vendido e o caralho. E o gajo ria-se.

PS – Ah, ah, ah!

PC – Um dia, quando eu encontrar esse gajo, vou dizer-lhe: ‘Você é um vigarista do caralho!’. Só quero ver se ele tem jogo hoje!

PC – Olha, da Taça vai ter, pá! Mas eu já te tinha avisado pá! Já estava montado isso há muito tempo

PC – Não, digo se vai ter domingo.

PC – Ah, para domingo vamos ver.

PC – Pode ser que o fodam na Figueira. Que ele tenha lá uma surpresa.


PINTO DE SOUSA

02/02/2004

Pinto da Costa e Pinto de Sousa comentam as incidências de um jogo Boavista-Guimarães arbitrado por Paulo Baptista. Depois, o presidente dos azuis-e- -brancos pede a Pinto de Sousa para falar com Luís Guilherme, de forma a combinarem as nomeações da jornada seguinte.

Pinto da Costa – Não! Eu disse-te a ti, os dois penáltis, são penáltis, não houve nenhum erro crasso [...] E apitar o Boavista, para um gajo que não esteja ali a pensar que o major é o presidente da Liga, é complicado... porque com aquelas palhaçadas todas, o gajo tem de os pôr na rua.

Pinto de Sousa – Pois é...

[...]

PC – Agora, tudo isto nasce de uma má nomeação do imbecil...

PS – É, sem dúvida!

PC – Olha, não te esqueças mas é de comunicar ao gajo, para ele não queimar nenhum [...] Devias pedir por escrito, para ficar.

PS – É, vou-lhe mandar por escrito. Vou-lhe telefonar e dizer [...] vou-lhe mandar por escrito, os jogos.

PC – Os jogos, esses quatro vão fazer esses jogos! Diz mesmo, esses jogos!

PS – Digo.

PC – É, assim ele já não tem desculpa.

PINTO DE SOUSA
02/01/2004

Pinto de Sousa, responsável pela arbitragem na Liga, pergunta a Pinto da Costa se ele aceita Jacinto Paixão para arbitrar um jogo da Taça. Antes disso, Pinto da Costa diz a Pinto de Sousa que deve alterar a classificação de um árbitro.

Pinto da Costa (PC) – Estou.

Pinto de Sousa (PS) – Estou, Zé!

PC – Já rectificaste a nota do homem?

PS – Eh, eh, eh!!!!! É pá, deixa lá o rapazinho em paz, coitadinho!

PC – Ah???

PS – 8... 8,4

PC – É uma boa nota!

PS – É uma boa nota!

PC – Pois foi, mas o observador tem de ser reclassificado!

PS – Olha, estou-te a telefonar pelo seguinte. Estou a pensar nomear o Jacinto Paixão para o Porto-Felgueiras. Não há inconveniente nenhum?

PC – Ah!

PS – Jacinto Paixão... Porto-Felgueiras! Não é nada de especial.

PC – Se entretanto ele não for nomeado para outro jogo [...] nomeado para a casa Pia!

PS – Eh, eh, eh!

PC – Mas não é de muito longe? [...]

PS – Não, coitado, precisa de fazer um joguito e como ainda fez poucos.

PC – Por mim, pode.

Poucas horas depois, Pinto de Sousa volta a telefonar a Pinto da Costa. Afinal, Jacinto Paixão não pode ser nomeado porque vai apitar um jogo do Estoril.

Pinto de Sousa (PS) – Olha, afinal, o Jacinto Paixão vai fazer agora o Estoril, no próximo dia 4 de Janeiro, eu não tinha reparado [...] De maneira que olha, como não é um jogo importante ia o Paulo Pereira, de Viana do Castelo.

Pinto da Costa (PC) – É fraquinho!

PS – É. Mas o jogo também não tem interesse nenhum...

PC – Sim, mas porque é que não pões um gajo do Porto?

PS – Pá, porque o Jorge Sousa vai fazer o Estoril- -Setúbal [...] O Paulo Costa e o Paulo Paraty não os nomeei já porque fizeram um jogo a semana passada. E o Martins dos Santos não se justificava para este jogo [...] e em segundo lugar vai fazer um jogo importante.

PC – Qual é o jogo?

PS – Talvez o Nacional, com o Leiria [...]

PC – Mas o Martins, para lá para baixo é bom. Que assim põe aquilo tudo em sentido.

PS – É, mas esse vai para Leiria.

PC – É, está bem.

PINTO DE SOUSA
30-11-2003

Dias antes do jogo FC Porto-Maia, um dos encontros que o procurador de Gondomar investigou, Pinto de Sousa perguntou a Pinto da Costa se estava de acordo com a nomeação do árbitro.

Pinto de Sousa (PS) – Houve um árbitro pá, que anda assim com problemas... que me pediu para eu jantar com ele e eu fui

Pinto da Costa (PC) – Quem é?

PS – O Nuno Almeida.

PC – Ah!

PS – Um do Algarve, pá [...] Estou a pensar nomeá-lo para o Porto-Maia... vês algum inconveniente?

PC – Não, acho bem! É bom árbitro. [...] Mas é um bocado difícil justificar um gajo de tão longe!

PS – É. mas é taça, é taça. [...] E ele pediu-me para ir o Paulo Januário como assistente.

PC – Está bem, ajuda.

PS – É. Ajuda um bocado.

PINTO DE SOUSA

01-03-2004

Pinto de Sousa liga a Pinto da Costa pedindo-lhe que escolhesse o árbitro para a meia-final da taça de Portugal. Pinto da Costa escolhe Bruno Paixão.

Pinto da Costa (PC) – Estou?

Pinto de Sousa (PS) – Estou. [...] Olá Jorge. Ouve lá, já tens alguma ideia para a final da taça?

PC – Para a final?

PS – Para a meia-final pá, para a meia-final.

PC – Ó pá, eu... queres internacional, né?

PS – É, mais ou menos pá.

PC – Acho que pode ser o Bruno!

PS – O Bruno?

PC – Não é?

PS – Hum...

PC – Não nos apita há muito...

PS – Deixa ver, o Bruno só tem um defeito...

PC – Qual é?

PS – É ter feito um jogo agora... Mas pode ser. Vamos ver.

NÚMEROS DO PROCESSO

A equipa de Maria José Morgado, que investiga as certidões do ‘Apito Dourado’, fez 65 interrogatórios, 38 diligências externas, 12 perícias e percorreu um total de 32 910 quilómetros.

BALANÇO NO SITE DA PGR

O último balanço no site da PGR, datado de 21 de Março, dá conta que a equipa de Maria José Morgado já findou 12 inquéritos: seis resultaram em acusação e seis foram arquivados.

TOMADA DE POSSE

Ontem, a magistrada que coordena as investigações a Pinto da Costa tomou posse como responsável pelo DIAP de Lisboa.

NO 'APITO' DESDE 2004

Em Dezembro de 2004, Pinto da Costa foi ouvido pela primeira vez no Tribunal de Gondomar, depois de várias peripécias, no âmbito do processo ‘Apito Dourado’.

'EU CAROLINA'

O livro autobiográfico de Carolina Salgado, que foi companheira de Pinto da Costa durante seis anos, acabou por ser o mote para reabrir alguns dos processos já arquivados do ‘Apito Dourado’.

Tânia Laranjo/Manuel Queiroz