Pini Zahavi em entrevista - 26/11/2006
Jamie Jackson - Terça-feira, 26 de Novembro de 2006 - Observer Sport Monthly
Certa tarde, na última semana de outubro, Pini Zahavi foi a uma reunião no Les Ambassadeurs, um cassino e clube privê em Mayfair, Londres. No restaurante do clube, ele discutiu negócios com Kia Joorabchian, empresário iraniano que está encabeçando uma proposta de controle do West Ham. Na mesa à frente deles estavam telefones celulares, faxes, agendas e uma bandeja de chocolates belgas.
Zahavi é o primeiro e único super-agente do futebol, e ele e seu sócio fumavam roliços charutos cubanos enquanto discutiam os detalhes do prolongado controle. Durante toda a tarde, Zahavi atendeu chamadas em seus dois celulares, alternando, fluentemente, entre seu hebraico nativo, o português, o alemão e o inglês, enquanto discutia futuras viagens e negócios. 'Talvez se eles trouxerem €15 milhões de euros para o River Plate, mas o preço vai subir', ele falou em um dos telefonemas, antes de sorrir e ofertar a breve biografia de um emergente jogador argentino. Joorabchian, entretanto, mencionou o 'presidente do Benfica' e perguntou quantos assentos Zahavi necessitaria para o jogo do Arsenal com CSKA Moscow, pela Liga dos Campeões, essa semana.
Ao contrário da noção que prevalece, de que falta transparência nos negócios financeiros do futebol e que estes são orquestrados por empresários secretos, a dupla estava relaxada e desprotegida. Durante todo o tempo que passei com eles, Zahavi foi gentil, bem-humorado e franco. Quando Carlos Alberto, o goleador brasileiro que ganhou a Liga dos Campeões, sob o comando de José Mourinho, no Porto, chegou para a reunião, Zahavi deixou-o esperando enquanto continuávamos a conversar.
Sua explicação para dar a esta revista sua primeira entrevista importante foi simplesmente: 'Gostei do som de sua voz no telefone. Esta é a forma pela qual julgo as pessoas. E você e eu somos parecidos, porque eu também fui um jornalista'.
É novembro de 1981 e a seleção de Israel está em Belfast, preparando-se para o jogo de classificação para a Copa do Mundo contra a Irlanda do Norte. Zahavi, então um jornalista esportivo do Yedioth Ahronoth, maior jornal de Israel, está sentado em uma cama no seu quarto de hotel, fumando o charuto obrigatório. No quarto com ele está Yossi Melman, também na cidade para ver a partida como correspondente de Londres, para o Ha'aretz, um jornal Israelense.
'Yossi', Zahavi diz, 'quero que você aprenda uma lição da minha história. Minha forma de trabalhar é a cada quatro ou cinco anos mudar de um jornal para outro'. Antes de trabalhar no Yedioth, Zahavi, então com 36 anos, tinha trabalhado para o Hadashot Hasport, um jornal de esportes, antes de sair após a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Depois desta conversa de 1981, ele trabalhou no Yedioth por mais quatro anos, antes de mudar para um outro periódico chamado somente Hadashot; ele finalmente encerrou sua carreira como jornalista em 1988.
Melman resumiu a história. 'Hadashot Hasport era muito, muito popular em Israel. Pini me contou, "Yossi, se você se mudar de um lugar para outro, você recebe compensação e um salário melhor". Então eu perguntei a ele, "Você está interessado em ganhar dinheiro"? Ele me olhou e disse, "Naturalmente. Eu não quero permanecer como um probre correspondente de esportes"! Pini estava rindo e rindo e rindo...’
Zahavi, desde então, certamente ganhou dinheiro. Um sócio próximo acredita que ele tem mais que o suficiente, pelo menos £65milhões de libras, 'o que permite a ele se aposentar com um estilo de vida muito confortável. Porém, ele ama o trabalho'.
Pini Zahavi é um promotor do futebol por excelência, o homem que pode começar, negociar e finalizar qualquer negócio, seja para um jogador, clube ou agente, seja o que for, grande ou pequeno. Ele deve ter os melhores contatos no esporte. 'Sim, tenho conexões muito, muito boas', diz sorrindo 'porque eu nunca desapontei ninguém no mundo. E o que eu faço, faço honestamente e sem nenhuma fraude. Digo o que eu quero dizer'.
O crescimento de Zahavi coincidiu com a transformação do futebol no fenômeno global que é hoje. A riqueza dos jogos, influência e poder foram impelidos pela expansão da Copa do Mundo e pela criação da Liga dos Campeões, e o aumento enorme das transmissões por televisão e renda de patrocínios, que transformou as ligas nacionais e fizeram da Premier League inglesa a mais rica no mundo.
Ele esteve envolvido em alguns incidentes bem discutíveis recentemente, tais como a tranferência de £30 milhões de libras, de Rio Ferdinand do Leeds United para o Manchester United, em 2002 e as reuniões secretas com representantes do Chelsea envolvendo Sven-Goran Eriksson, em julho de 2003, e Ashley Cole, em janeiro de 2005. Ferdinand mudou entre dois ferozes rivais, para a fúria dos fãs do Leeds; Eriksson era o técnico da Inglaterra, contudo, permitiu-se ser cortejado pelo Chelsea, quando encontrou Roman Abramovich, seu novo proprietário; e Cole, o lateral esquerdo da Inglaterra, estava cumprindo contrato com o Arsenal e proibido de negociar com outros clubes quando ele e seu agente se encontraram com o técnico José Mourinho e Peter Kenyon, o diretor-geral do Chelsea.
Contudo, não importa o que aconteça, Zahavi sempre desponta incólume. Ele está registrado como um agente em Israel, então foi fora da jurisdição da Associação Inglesa de Futebol. Enquanto Kenyon, Jonathan Barnett, agente de Cole, Mourinho e o Chelsea foram todos punidos depois que sua reunião tornou-se pública, a FA e a Premier League estavam impedidas de investigar a participação de Zahavi. Agora, a FA alterou seus estatutos para precaver-se contra estes acontecimentos novamente, e pediu que a Fifa investigasse o papel de Zahavi no incidente.
Zahavi - cujos amigos incluem Ehud Olmert, Primeiro-Ministro de Israel, e Reuven Rivlin, um ex-porta voz do parlamento de Israel, o Knesset, e um possível futuro presidente, tem diversificado seus interesses recentemente. Junto com Eli Azur, o proprietário de vários jornais russos em Israel, ele possui a Charlton, uma empresa de mídia que detém os direitos de transmissão dos jogos da Premier League, assim como das partidas domésticas do divisão principal de Israel (embora sua popularidade nos torneios locais tenha caído num primeiro momento, quando a temporada da Copa do Mundo foi transmitida na televisão paga).
Em 2003, Zahavi ajudou a trazer Roman Abramovich para o Chelsea. Ele foi apresentado a Abramovich há dois anos, em Moscou, por um amigo em comum e a amizade foi consolidada quando ele convidou o bilionário para assistir um jogo da Liga dos Campeões, entre o Manchester United e o Real Madri, em abril de 2003, dois meses antes do oligarca comprar o Chelsea.
Zahavi era o favorito para fazer este negócio se concretizar. Ele era influente, além do mais, tinha ascendência sobre os novos jogadores que chegaram ao clube na temporada. Estima-se que ele tenha ganho algo em torno de £5milhões de libras, dos £111milhões de libras que o clube investiu em atletas nesta temporada. A chegada de Abramovich ao futebol inglês gerou acusações que sua bizarra riqueza (os gastos com transferências do Chelsea alcançaram £441.5milhões de libras) desequilibrou o esporte inglês e europeu.
Em janeiro passado, Zahavi ajudou Alexandre Gaydamak a comprar o Portsmouth. Alexandre, ou Sacha, é filho de Arkady Gaydamak, um oligarca exilado, nascido na agora independente Ucrânia, que possui o Beitar de Jerusalém.
Então, em agosto, Zahavi apresentou ao futebol inglês o negócio tripartite, antes que os clubes bretões comprassem jogadores, como os internacionais argentinos Carlos Tevez e Javier Mascherano, trazidos ao West Ham num negócio sensacional. Isto foi facilitado pela Media Sports Investment - MSI, uma companhia antes encabeçada por Joorabchian e para a qual Zahavi age como corretor. A iniciativa de empresas comprarem jogadores tem sido, disse-me Zahavi, prática corrente na América do Sul 'por mais de 25 anos' e vai se tornar aqui também 'se o futebol inglês quiser sobreviver'.
Zahavi é único consultor do Hero Football Fund, até esta temporada. Os membros do comitê incluem David Elleray, antigo árbitro da Premier League, e QC David Griffith-Jones, especialista em direito desportivo. Isto ajuda a levantar £100milhões de libras de fontes privadas para adquirir os direitos comerciais dos jogadores. Este, disse Zahavi, é um dos muitos esquemas nos quais ele está envolvido, embora a MSI seja a mais visível. Em 2004, a MSI comprou o controle acionário do Corinthians, do Brasil, num negócio de 10 anos, o qual levou Tevez e Mascherano, que foram comprados, respectivamente, 100% e 50% pela MSI, para o clube de São Paulo em uma jogada combinada de £23milhões de libras (a TV Globo, uma companhia brasileira de televisão, adquiriu os outros 50% de Mascherano) comprando-os de seus clubes argentinos, Boca Juniors e River Plate. Apesar de algum sucesso em campo, eles nunca se fixaram no Brasil e agora estão no West Ham, onde eles jogam.
Quais são as vantagens dos jogadores de propriedade tripartilhada? Um empresário próximo de Tevez e Mascherano acredita que 'os jogadores não se interessam por quem os compra, clube ou empresas privadas, desde que eles (clubes ou empresas) tomem conta deles'. A mudança de Tevez do Boca Juniors para o Corinthians foi agenciada por Fernando Hidalgo, um agente argentino, sócio de Zahavi em sua empresa Haz Sports, que é sediada em Buenos Aires.
A transferência de Tevez e Mascherano para o West Ham, acredita-se nada ter custado ao clube londrino a não ser a taxa agencial de £5milhões de libras. Porém, há uma cláusula no negócio estipulando que o West Ham é obrigado a vendê-los se alguma oferta for feita pelos dois atletas nos próximos 5 anos. Em contrapartida, se o West Ham desejar ficar com os jogadores, deverá pagar £40milhões de libras. Isto é opção de compra, o contrário da cláusula comum de compra e venda, num contrato que estabelece que um jogador deve ser vendido, se um valor é recebido diante de um montante acordado.
Zahavi não é acionista da MSI; sabe-se que a empresa pertence a Badri Patarkatsishvili, um bilionário georgiano, proprietário do Dínamo Tbilissi, que é apoiado de alguma forma pelo oligarca russo Boris Berezovsky, que atualmente vive em Londres. Zahavi agiu como agente do West Ham no negócio que trouxe os argentinos para Londres e, portanto, deverá ser pago pelo seu trabalho, da mesma forma que Abramovich, ao comprar o Chelsea.
Numa época de globalização que importa se um clube é adquirido por interesses estrangeiros? Ou um jogador por três sócios? Jimmy Hill, envolvido em esportes por mais de 50 anos como jogador, técnico, administrador e operador de mídia, acredita que esquemas como os do Hero Fund, de Zahavi, assim como o crescimento dos oligarcas, são bons enquanto deixam dinheiro suficiente para manter os clubes solventes. 'De uma forma estranha os fãs vão protestar sobre o que está acontecendo, por causa de suas expectativas irrealistas de que seus clubes devem sempre estar ganhando', disse-me ele.
No entanto, Gordon Taylor, diretor geral da Professional Footballers' Association (Associação de Jogadores de Futebol Profissonal), é, previsivelmente, contra a prática de propriedade tripartida. 'É como negociar seres humanos', diz. 'E é desestabilizante forasteiros terem interesses financeiros em atletas’.
Kevin Roberts, que é diretor editorial do SportBusiness, uma respeitada revista mensal, concorda. 'É um perigo que jogadores nunca façam parte, adequadamente, do clube, sejam mais como água escorrendo. Sob o ponto de vista financeiro, um clube nunca possui verdadeiramente o jogador e, da mesma forma, não se beneficia quando ele vai embora outra vez'.
'O futebol mudou muito. Nas décadas de 1970 e 80, pelo menos no começo das temporadas, havia uma noção de que mais clubes teriam chance de conquistar os títulos. Agora, eu não estou tão seguro. Quando o Arsenal venceu o Manchester United no início desta temporada, nós estávamos somente na quarta rodada e as pessoas viviam dizendo que se eles perdessem seu desafio, ia virar um transtorno. E esta tinha sido somente sua segunda derrota na temporada. O que o dinheiro de Roman Abramovich fez foi elevar o nível muito além do que havia, enquanto no futebol o elemento chave é a competição'.
Porém, Dan Jones, um analista financeiro de futebol de uma filial municipal da Deloitte And Touche, diz: 'Propriedade tripartilhada já acontece aqui. Quando Danny Shittu estava no Queens Park Rangers, ele foi negociado em três partes (o fã Alex Winton comprou-o por £250,000 libras e também pagou seu salário durante a sua primeira temporada), É uma dificuldade para os investidores porque eles não podem obrigar seu jogador a fazer algo e há também a incerteza sobre quão bom ele poderá se tornar'.
Zahavi, entretanto, não se arrepende. 'O jogador de futebol quer pertença a uma empresa ou a empresários, continua integrado ao clube, porque a Fifa regula os direitos federativos, o registro pertence ao clube. Uma pessoa ou empresa só pode possuir os direitos econômicos. Se uma companhia compra os direitos sobre um jogador e ele vai jogar pelo West Ham, ou qualquer outro clube, então, quando ele é vendido, metade ou uma parte qualquer do pagamento, conforme o caso, é transferido ao proprietário dos direitos econômicos.
Zahavi acredita que Gordon Taylor, como muitos no futebol inglês, está simplesmente temeroso com esta mudança. Há xenofobia, também. “Tem havido uma campanha aqui contra os forasteiros e eu sou uma vítima disto”, disse-me ele. “Na Inglaterra eles não entendem absolutamente nada disso. É mais fácil comprar um jogador no qual você não tem segurança, por £10 milhões de libras se você está dividindo o risco com um parceiro. Agora, se o jogador se torna um craque e é vendido por £30 milhões de libras, então, naturalmente, você pode se sentir estúpido por possuir apenas metade do ganho. Mas, se o jogador se torna simplesmente comum, ou um fracasso, e não consegue ser vendido, você dirá: "Fantástico, o desastre não foi só meu.” Isso é exatamente o que acontece.
Zahavi concluíu seu primeiro negócio como agente em 1979, quando estava trabalhando como jornalista: a transferência do israelense Avi Cohen do Maccabi Tel Aviv para o Liverpool, por £200,000 libras. 'Não era como agora' disse ele. 'Naquele tempo eu simplesmente gostava de futebol. Mas, esse negócio me mostrou como você pode ganhar dinheiro com o jogo. Acho que este foi o verdadeiro começo dos agentes.'
O negócio envolve sorte, porém sublinha o encanto e o pensamento rápido de Zahavi. 'Eu costumava ir ao futebol, na Inglaterra, com Reuven Rivlin, a cada quatro semanas', disse. 'Um dia, ficamos retidos no aeroporto de Heathrow por causa do mau tempo. Eu vi Peter Robinson, secretário do Liverpool, e lhe falei: "Por que você não dá uma olhada num bom jogador Israelense, Avi Cohen"? Eles enviaram seu “olheiro” Tom Saunders para observá-lo e logo Avi foi para a Inglaterra para fazer um teste. Bob Paisley, então treinador do Liverpool, gostou dele. Assinamos'.
Cohen lembra o que aconteceu. 'Eu conheci Pini, do Yedioth', contou-me. 'Todos os sábados ele transmitia os jogos do Maccabi e ele escreveu algo sobre mim'. Como ele descreveria Zahavi? 'Ele é muito amigável. Eu lidei com ele por vários anos. É honesto, e é bom de conversa. Mas, em Israel, ele não é alguém que quer estar sempre nos jornais. Ele não é uma estrela. As pessoas não sabem quem Pini Zahavi realmente é. Sabem que ele trabalhou no futebol durante anos, mas isso é tudo'. Cohen voltou para o Maccabi em 1981, antes de jogar sob o controle de Graeme Souness, um amigo próximo de Zahavi, no Rangers, em 1987.
Levaria um tempo surpreendentemente longo até que Zahavi fizesse seu próximo negócio notável, a transferência em 1990 do goleador israelense Ronnie Rosenthal do Standad Liege para o Liverpool. 'Eu estava indo bem na negociação com Luton, mas eles não podiam pagar o preço', Rosenthal disse agora. 'Voltei para a Bélgica e Pini conversou com Kenny Dalglish, então técnico do Liverpool.'
Por que demorou tanto para que Zahavi completasse seu próximo grande negócio? 'Eu ainda era um jornalista', contou ele. 'E não havia nenhum jogador Israelense que eu pudesse vender a equipes estrangeiras. Estava sob ataques constantes de outros jornalistas e então parei de atuar como agente por alguns anos, para meu pesar. Muitos jornalistas são negociantes: com dinheiro, com pessoas e com notícias. Mas, fui atacado porque fiz de forma aberta'.
Durante a décade de 1980 ele assiduamente fez contatos. Organizou encontros internacionais amigáveis em Israel. Souness, então capitão do Liverpool, e Dalglish, foram convidados para passar um feriado em Eilat e 'voltaram todos os verões'. E, exibindo um toque mais suave, Zahavi levaria os alaranjados Israelenses a Melwood, campo de treinamento do Liverpool, dos jogadores e do pessoal.
Depois do negócio de Rosenthal a influência de Zahavi começou a crescer, especialmente na América do Sul, onde, entre outros, ele representava o goleador Chileno Marcelo Salas, que interessava ao Manchester United. Ele, porém, apontou o negócio que levou o meio de campo Israelense, Eyal Berkovic, do Southampton para o West Ham em 1997, como um dos mais importantes, porque foi aí que Zahavi notou o jovem Rio Ferdinand. 'Quando eu o vi soube no mesmo instante que ele poderia ser o melhor, na sua posição. Ele tinha tudo'.
Zahavi tornou-se seu agente. Hoje, Ferdinand é o jogador mais bem pago do Manchester United, ganhando algo em torno de £110,000 de libras por semana, do clube, e muitos milhões mais em luvas. No ano passado, Ferdinand foi fotografado num restaurante de Londres com Zahavi e Peter Kenyon, do Chelsea, na época de renovação de seu contrato com o United. Zahavi descreve o encontro como 'totalmente inocente'.
Pini Zahavi nasceu em 1955 em Nes Ziona, um pequeno povoado, localizado a 20 milhas a sudeste de Tel Aviv, com uma população estimada ao redor de 10.000 habitantes, que desde então, triplicou de tamanho. O filho de um lojista, Zahavi (que tem duas irmãs mais velhas e um irmão, um bem-sucedido cirurgião cardíaco) concluiu o jardim de infância e o ensino fundamental com Jacob Shahar, agora, presidente do Maccabi Haifa.
Shahar continua um grande amigo. No mês passado, ele e Zahavi sentaram-se junto com Sven-Goran Eriksson, durante uma partida do Haifa, inevitavelmente incitando especulações de que o sueco estava em posição de assumir o lugar de Alan Pardew, como técnico do West Ham. 'Nós jogamos futebol juntos, quando garotos, no centro de esportes de Nes Ziona', contou Shahar sobre Zahavi. 'Era nossa paixão. Porém, ainda muito jovem, Pini quis escrever.'
Zahavi diz: 'Futebol foi meu amor desde que eu era um bebê. Eu joguei pela equipe local e a treinei seu time juvenil por dois anos, antes de me alistar no exército.' Zahavi tinha 22 anos quando iniciou, sua jornada de oito anos no Hadashot Hasport, antes de se mudar para o Yedioth Ahronoth. 'Quando me juntei a eles, tinham apenas duas colunas esportivas, mas eu fiz três páginas, depois seis, então nove', contou-me numa conversa anterior, antes de nós encontrarmos. 'Era principalmente sobre futebol. O esporte não era o mesmo, mas durante os anos 70s, foi gradualmente ganhando em influência.'
Shaul Isenberg, um colega de Hadashot Hasport, lembra o compromisso de Zahavi com o trabalho. 'Pini era um jornalista excelente, um dos melhores. E era muito impetuoso. Sua atitude era de trabalhar 26 horas por dia, você entende o que eu quero dizer, sair da cama duas horas cedo. Se eu me surpreendi com o seu sucesso? Não. Para mim, desde o começo, ele foi uma grande estrela.'
Zahavi, que é viúvo e tem duas crianças, começou a fazer contatos mais importantes durante a Copa do Mundo de 1974. “O torneio me ajudou muito. Foi quando eu começei a conhecer pessoas e construir amizades.” Por volta da década de 1990, sua lista de contatos tinha se tornado extensa. Graeme Souness, Kenny Dalglish, Terry Venables e Ron Atkinson são amigos próximos, assim como 90% dos técnicos da Inglaterra. A próxima geração é ainda mais chegada. “Eles não me vêem como um ex-jornalista, mas como um rapaz que entende de futebol. Construí amizades fortes com muitos jogadores e nós nos tornamos como irmãos. Na Inglaterra, enquanto eu emergia, havia técnicos que nada sabiam sobre jogadores europeus. Você nem sequer consegue encontrar os resultados das outras ligas européias nos jornais. Era uma ilha deserta e eles não podiam deixar de se importar com o esporte mundial. Eu era capaz de ajudar a mudar atitudes.”
Zahavi tem escritório em Tel Aviv e, apesar da sua fortuna, vive modestamente, de acordo com amigos, num apartamento litorâneo de £200,000 libras, no norte da cidade. Aluga um flat em Marble Arch, centro de Londres, onde a sua amizade com Alex Ferguson está celebrada num quadro que retrata os dois se abraçando, que está colocado sobre a lareira de sua sala de estar.
Zahavi viaja continuamente. Durante uma conversa ele falou sobre as viagens para a Ucrânia e para a América do Sul, e, quando nos encontramos, ele estava planejando ainda obter mais milhas aéreas. Questionado sobre se ele tem qualquer outro interesse, ele simplesmente diz: “Nenhum outro além do futebol, eu nem sequer assisto outros esportes. Eu não tenho interesse em nada mais. É só futebol, futebol, futebol.”
Quando conversamos pela última vez, ele estava de volta a Tel Aviv, e pareceu mais tenso do que antes, talvez porque a tentativa do controle acionário do West Ham não estava funcinando como planejado. Seus interesses comerciais são como labirintos. Ele tem uma empresa sediada em Gibraltar, Global Sports Agency (GSA), que negocia em grande parte com Portugal e com o sul da Europa e tentou um negócio semelhante ao do Corinthians com um clube polaco, KSP Warszawa.
Há uma rede de olheiros e sócios trabalhando para ele ao redor do mundo, notadamente na África, que ele considera ser “a zona mais importante do futebol. Eu não acho que a Europa produzirá muitos novos jogadores. Os grandes virão da África e da América do Sul, que é o porquê de minha grande dedicação ao Brasil e à Argentina.”
Zahavi não tem nenhum pesar sobre a chegada de Abramovich à Inglaterra. “O que era o Chelsea antes da vinda de Roman?” Ele perguntou, retoricamente. Faltavam dois dias para decretação da falência. A situação era um desastre. O diretor geral à época, Trevor Birch, veio e realmente implorou. “Ajuda-me”, disse ele. “Nós não podemos pagar os salários.” Agora, o Chelsea é uma das melhores equipes do mundo. E isso graças ao dinheiro de Roman Abramovich.
“Portsmouth estava a caminho do rebaixamento, não para a primeira divisão, mas para a segunda, ou para a terceira. Agora, estão indo bem. Porque, eu fiz coisas terríveis! Não, tudo que eu fiz foi conseguir trazer alguém que colocasse seu próprio dinheiro no clube. Mostre-me um clube na Inglaterra que trabalhe somente com ingleses, que não seja um negócio. Naturalmente, um clube de futebol é um negócio que serve à comunidade, mas, ainda assim, é um negócio. Quando o jogador conversa com o técnico sobre salário é dito a ele, "Desculpe-nos, mas não podemos pagar isso. Não se esqueça que nós estamos administrando um negócio". Sempre dizem isso. Essa é a razão pela qual se alguém disser que não é um negócio, ele acaba de mentir.”
Ele dá uma pausa. Agora, finalmente, está na hora do seu compromisso com Carlos Alberto, no bar do Les Ambassadeurs. Acende um novo charuto e aperta a mão calorosamente. “Observe o West Ham”, diz, incapaz de me deixar ir embora. “Porque se o rapaz que eu convenci a investir seu dinheiro, Eli Papouchado, um magnata israelense da hotelaria, entrar, eu prometo a você que, embora eles estejam agora lutando na liga, eles estarão OK. Investidores não se importam com quem possui o clube. Eles só se preocupam com o desempenho da equipe. É o mesmo no Japão, na Coréia, na Argentina, na Colômbia, na África, em toda parte.”
Zahavi sorri outra vez. E está acompanhado de Joorabchian, Carlos Alberto e um amigo identificado só como “Boris” - mas não é o oligarca Berezovsky. Por tudo que eu sei, Zahavi pode ter se juntado mais tarde com Abramovich ou Papouchado, Gaydamak ou Patarkatsishvili, para degustar uma garrafa de Cristal ou para jogar um blackjack ou uma roleta, no andar de cima, no salão privativo de jogos. Qualuer coisa parece possível no mundo de Pini Zahavi, e sua influência não parece ter limites.
(The Guardian, 26/11/2006)
Marinho Neves colaborava com Dias da Cunha
Janeiro de 2007 - Marinho Neves, ex-jornalista e autor do livro ‘Golpe de Estádio’, que versa sobre a temática da corrupção no futebol português, revelou ontem ter trabalhado secretamente durante seis anos para o Sporting, tendo sido contratado em 2000 pelo antigo presidente Dias da Cunha, para o manter informado sobre os jogos de bastidores da modalidade. O tal ‘sistema’ de que tanto falou.
Durante a cerimónia de relançamento do livro, Marinho Neves explicou que a sua colaboração terminou quando Dias da Cunha se demitiu, “devido às guerras internas no clube, instigadas por pessoas que ainda lá estão”. Segundo fez saber, os relatórios confidenciais por si elaborados e destinados ao antigo presidente já estavam a chegar, em determinado momento, “a pessoas do Norte”.
Sem mencionar nomes, explicou como as coisas se passavam:
“Com duas semanas de antecedência, eu sabia quem eram os árbitros designados para certos jogos. Sabia também quais os jogadores do Sporting que iriam ser enervados pelos árbitros, no sentido de reagirem e assim acabarem expulsos, para enfraquecer a equipa. Fazia relatórios e enviava-os a Dias da Cunha. Mas essas informações acabavam por não chegar ao técnico José Peseiro, que assim não podia avisar antecipadamente os jogadores no sentido de não reagirem às provocações”.
O jornalista disse ainda que Dias da Cunha, com base na informação recolhida por ele, Marinho Neves, tentou a regeneração do futebol através de uma aliança com Luís Filipe Vieira, “mas logo aí houve anticorpos dentro do clube, contrários a essa aproximação”.
Confrontado com o teor destas afirmações, Miguel Salema Garção, director de Comunicação do Sporting, confirmou ter existido uma colaboração entre Marinho Neves e o clube e deu a conhecer a posição dos actuais dirigentes:
“O dr. Dias da Cunha sempre recebeu total solidariedade dos dirigentes que ainda estão no Sporting na sua luta pela regeneração do futebol português. O actual presidente entendeu cessar essa colaboração porque escolheu outras formas de lutar por essa regeneração, nomeadamente com uma participação activa na Direcção da Liga.”
Volvidos dez anos sobre a publicação do romance ‘Golpe de Estádio’, obra que relata práticas de corrupção no mundo do futebol, o jornalista Marinho Neves relançou ontem a obra e prometeu para breve um novo livro, agora não ficcionado.
“As práticas relatadas no ‘Golpe de Estádio’ estão mais actuais que nunca. Mas mal o processo ‘Apito Dourado’ saia do segredo de justiça, avanço com um livro, desta vez não ficcionado, sobre todo o processo, com nomes e factos”, revelou.
Sobre o ‘Apito Dourado’, Marinho Neves só diz, por agora, que “muitas pessoas vão ficar surpreendidas com os resultados. Toda a gente vê Pinto da Costa como o ‘monstro’, mas antes dele outros cairão”.Sobre o livro de Carolina Salgado, Neves diz que não precisou “de dormir com Pinto da Costa para saber mais sobre ele que a própria Carolina”.
Janeiro de 2007
Artigo publicado no Correio da Manhã
Fonte: Bancada Directa
Costinha
Julho de 2005
Entrevista de Alexandra Tavares Teles “Sábado” a Costinha
" posso dizer que aquilo que fizeram ao Mourinho foi uma vergonha "
ATT - Alguma vez se arrenpendeu de ter ficado no FC Porto depois do Euro 2004 e da saída de Mourinho ?
Costinha - Atentendo ao que se passou, fiquei um bocado arrenpendido. Perdi tempo. Havia vários clubes interessados, mas o FC Porto convenceu-me de que era uma peça importante para a equipa, um factor de estabilidade no balneário. Tinha um contrato muito bom, acima das possibilidades do mercado português e achei que devia ficar. Fiz mal.
ATT - Pelos resultados desportivos ?
Costinha - Por tudo. Nunca pensei que o FC Porto se destruísse em tão pouco tempo. Da equipa campeã europeia apenas ficaram 10 jogadores. A equipa ficou sem identidade, sem espírito. Na época anterior, era habitual ver 10 ou mais jogadores no mesmo restaurante sem ter havido qualquer combinação. Era um prolongamento dos treinos e dos jogos. Com tantas saídas e tantas entradas, cada um ficou para seu lado. Não consegui perceber que tipo de política foi esta nem o que se prentendia obter com ela.
ATT - O FC Porto apontou razões financeiras...
Costinha - Pelos valores a que venderam o P.Ferreira, o Deco, o R.Carvalho e ainda o Mourinho, não era preciso vender mais ninguém. Ia buscar o Seitaridis, um médio e pronto. Assim , sim: seria possível reorganizar a equipa, pô-la de novo a funcionar.
ATT - Terá sido uma opção de Del Neri...
Costinha - Não me parece que lhe tivesse sido dado o poder de desfazer equipas campeãs da Europa.
ATT - A sangria na equipa continuou com Fernández...
Costinha - Fernández construiu uma equipa e depois venderam-se mais jogadores.
ATT - Derlei foi dispensado por vontade de Fernández ?
Costinha - Isso é mais complicado. Para perceber a saída de Derlei é preciso encontrar quem está por detrás dela. Não admito que um grupo de adeptos venha criticar e enxovalhar, com faixas provocatórias, um atleta que deu ao clube aquilo que Derlei deu. E mais espantados ficámos quando ninguém do FC Porto tomou uma atitude. Pelo contrário. Essa gente, depois de insultar os jogadores, entravam nas instalações do clube com um livre-trânsito e ninguém fazia qualquer reparo. E mais: de dia ameaçavam os jogadores e á noite jantavam com dirigentes do FC Porto. Que pensa um grupo quando sabe que quem os insultam e ameaçam janta com dirigentes do clube ?
ATT - Conhece o presidente dos Super Dragões ?
Costinha - De vista. Ele diz-se profissional de claque e, pelo que aparenta, tem uma profissão rentável. Muitos jogadores do FC Porto não ganham para comprar Porches e ele tem um.
ATT - Acha que as claques serviram para branquear as decisões da direcção que falharam ?
Costinha - Não sei. Sei que tenho no meu corpo marcas que provam o que dei ao clube. Joguei lesionado e joguei infiltrado, fi-lo porque quis e por dedicação. Ganhei tudo o que havia para ganhar. E ainda andam a correr atrás de mim para me fazer a vida negra?! E os responsáveis, os directores não fazem nada ?
ATT - Foi ameaçado ?
Costinha - Sim, mas como tenho um grande amigo na cidade do Porto o caso teve um fim pacífico.
ATT - Qual foi a situação mais complicada ?
Costinha - Quando o FC Porto empatou na Madeira com o Nacional, os desacatos começaram logo no aeroporto do Funchal. As claques provocaram com insultos todos os jogadores, sobretudo o Raul Meireles, que tivera o azar de fazer um autogolo. Foi mesmo agredido fisicamente, com uma garrafa. Eu estava no Porto, a recuperar de um traumatismo craniano, mas soube o que se estava a passar porque telefonei a vários colegas, por solidariedade. E perante o que ouvi decidi ir ao aeroporto do Porto esperar a equipa. Levei dois amigos, para não levar dois guarda-costas, e tive razão, porque quando lá cheguei vi um bando de 60 ou 70 Super Dragões. Os jogadores foram os primeiros a sair do avião e a levar com aquela gente toda, com insultos, com agressões, enquanto os dirigentes ficaram dentro do avião, protegidos. Apenas Reinaldo Teles saiu. E a verdade é que aquela gente agrediu atletas. Na época passada, tudo foi permitido no FC Porto.
ATT - Nunca tentou falar com o presidente ?
Costinha - Não. Eles é que decidem. Quando acertam, dizem que acertam, quando erram não dizem nada. Tinhamos jogadores campeões da Europa a ganhar 5 escudos e outros sem nada ganho com ordenados muito superiores. E eu tentava ajudar falando com eles.
ATT - O mau comportamento da equipa nos jogos em casa esteve relacionado com este ambiente ?
Costinha - Foi uma das questões da época e a explicação. É muito simples: alguns jogadores não conseguiram jogar por medo. Estamos a falar de ameaças vindas de grupos organizados. Por mais que alguns de nós tentasse criar um ambiente desinibido, houve quem ficasse em pânico por falhar um passe ou uma jogada.
ATT - Foi por isso que jogadores como Luíd Fabiano renderam pouco ?
Costinha - Luís fabiano foi um dos que se deixaram apanhar por esse medo.
ATT - Estamos a falar das mesmas pessoas de quem Mourinho se queixou ?
Costinha - Claro. Estou por dentro da história, mas não a posso revelar sem autorização dele. No entanto, posso dizer que aquilo que fizeram ao Mourinho foi uma vergonha.
ATT - O que fez Pinto da Costa para evitar esses problemas ?
Costinha - Ele continua a ser um grande líder, mas nos maus momentos não basta dizer que a equipa perde porque o Derlei só gosta da noite ou porque o Costinha só gosta da noite. Bodes expiatórios, não. É fácil atribuir a destruição da equipa campeã do Mundo a Del Neri, é fácil atribuir o despedimento dele ás pressões dos jogadores, é fácil atribuir a Fernández o esvaziamento, em janeiro, da equipa, e é fácil convecer a massa associativa, através da colocação estratégica de meia dúzia de Super Dragões num estádio, de que a culpa é dos jogadores. E assim protege-se a direcção. Mas eu não sou dos que ouvem, vêem e ficam calados. A equipa e o espírito de Mourinho foram completamente destruídos.
ATT - Foi para Moscovo só por causa do dinheiro ?
Costinha - Quando deixar de pensar em ganhar títulos, vou escolher um clube mais pequeno para que não me chamem chulo.
ATT - Mourinho nunca o convidou ?
Costinha – Em Novembro de 2003, Mourinho disse-me que no fím da época seriamos campeões Europeus, que ele iria para um grande clube e perguntou-me se queria ir com ele. Disse que sim. Depois isso não se concretizou, mas não lhe quero mal por ter levado o Paulo, o Tiago e o Ricardo. Continuo a falar com ele regularmente.
ATT - E quando regressar a Portugal ?
Costinha - Todas as pessoas sabem que sou sportinguista desde pequeno. Quando regressei a portugal disse que gostava de jogar no FC Porto, onde queriam ganhar sempre tudo e os valores da familia eram defendidos. Recusei uma proposta do benfica, podia ter ido para o Sporting, mas escolhi o Fc Porto. Num degundo regresso, não sei o que acontecerá.
ATT - Aconselhou Miguel ao Dínamo ?
Costinha - Aconselhei. Como jogador e como homem. O Miguel não quis vir e acho que fez bem. É novo e tem outros clubes interessados para onde ir.
Grande entrevista - Octávio Machado
2004-12-11 - Correio da Manhã
"Fui o primeiro a falar do sistema"
Retirado do futebol e profundamente desiludido com Pinto da Costa, o adjunto de Ivic na vitória do FC Porto, em 1987, na Taça Intercontinental, recorda as histórias que marcaram “uma equipa de heróis”. Mas, com o ‘Apito Dourado’ na berlinda, Octávio salienta que já denunciava situações menos claras do futebol português dez anos antes de Dias da Cunha falar no sistema.
Correio da Manhã – O que nunca vai esquecer do jogo de Tóquio de há 17 anos, que deu a Taça Intercontinental ao FC Porto?
Octávio Machado – É muito difícil transmitir aquilo que se viveu em Tóquio. Foram tempos de uma grande dedicação ao clube. Não vou esquecer aquele grupo, a sua capacidade de sacrifício e a paixão pelo clube que cada um demonstrava diariamente.
E que pequenos pormenores fixou?
– Vários. Das penosas deslocações do hotel para o treino, muito demoradas por causa do trânsito infernal, do esforço para adaptar os jogadores ao fuso horário em muito pouco tempo, da viagem de ida, do nervosismo que me fez esquecer bens valiosos na casa de banho e de como fiquei contente quando uma passageira mos devolveu.
Nunca passou pela cabeça dos técnicos interromper o jogo devido ao frio?
– Aquele grupo?! Aquela equipa era uma equipa de heróis. Gente que, em nome de uma instituição, viveu aqueles momentos com paixão, disponível para todos os sacrifícios. E não só naquele dia. Estamos a falar de toda uma época em que a equipa foi obrigada a jogar nas Antas em condições muito difíceis por causa do rebaixamento da relva. E acabámos com 15 pontos de avanço do segundo classificado.
E tem más recordações do jogo de Tóquio?
– Tenho. Na viagem de regresso, parámos na Suíça e foi aí que o presidente decidiu que a taça não seria apresentada aos adeptos nem pelos jogadores nem pela equipa técnica. O Estádio das Antas encheu, eu e alguns atletas, entre eles Fernando Gomes, fomos lá, mas não podemos levar a Taça.
Porquê?
– Basta lembrar que, nessa época, Ivic saiu do Estádio Nacional debaixo de uma vaia dos adeptos portistas, depois de ganhar a Taça de Portugal. Ele que serviu o FC Porto como ninguém.
Era uma estratégia do presidente?
– O presidente sempre tentou provar que as vitórias eram dele. É claro que nunca pude aceitar comportamentos que questionassem a dedicação e a paixão daquele grupo. Ivic foi embora, eu saí, Teles Roxo, um dos mais dedicados dirigentes do clube, abandonou, assim como Álvaro Braga. Não acham estranho? Isto tinha de ter um limite.
O FC Porto que joga amanhã em Tóquio está muito longe daquele que jogou há 17 anos?
– A minha última passagem pelo FC Porto foi uma desilusão. Recordo que, nessa altura, a equipa já não era campeã há dois anos e tinha falhado o acesso à Liga dos campeões. E isto porque os valores estavam perdidos. No FC Porto de hoje apenas reconheço Baía como grande referência do passado.
E o presidente?
– Posso dizer que conheci um presidente que se chamava Jorge Nuno e que me motivou pela palavra. E conheci, mais tarde, um presidente chamado Pinto da Costa que me decepcionou pela palavra.
Não coloca a hipótese de um dia fazerem as pazes?
– Quando uma pessoa jura pela filha e afinal está a mentir é difícil. Foi o que ele fez. Jurou-me pela filha que Mourinho não iria para o FC Porto e já tinha levantado a taça de champanhe com aquele treinador.
Ficou surpreendido com as evoluções do processo ‘Apito Dourado’?
– Eu, que ando há quarenta anos no futebol?! Fui a primeira pessoa a falar do sistema. Dez anos antes de Dias da Cunha o fazer. Pensa que alguma vez vou esquecer o que vivi antes do jogo Gil-Vicente-FC Porto na época de Carlos Alberto Silva. Foram os momentos mais traumatizantes da minha vida e da minha carreira. Esse jogo determinava a descida de divisão do Gil Vicente, treinado por António Oliveira, caso a equipa perdesse contra o FC Porto, na altura do jogo já campeão nacional.
Não esquece porquê?
– Porque tive de lutar para que mantivéssemos a nossa dignidade.
Sofreu pressões para que o FC Porto facilitasse a vida ao Gil Vicente?
– Num telefonema chegaram a dizer-me que eu era a única pessoa do FC Porto que desejava a vitória da equipa frente ao Gil Vicente.
Quem lhe telefonou?
– Um amigo. De facto, bem vi aqueles que foram ao balneário do Gil Vicente festejar a vitória da equipa. Perdemos por 1-0, mas não perdemos a dignidade porque não cedo a pressões e disse isso mesmo aos meus jogadores no fim do jogo.
Pinto da Costa deu-lhe a entender que o FC Porto devia facilitar?
– Nunca me diria isso porque me conhece.
Algum dirigente do FC Porto o fez?
– Há muitas maneiras de fazer pressão. Posso apenas dizer que vivi momentos muito difíceis, mas tenho que deixar alguma coisa para revelar no meu livro. Mas não foi a única vez que me aconteceu. Num jogo entre a Académica e o FC Porto em que se discutia a descida de divisão da Académica, também passei por situações difíceis. Acabamos por ganhar com um golo de Raudnei, infelizmente para alguns, porque não era suposto o FC Porto ter ganho esse jogo à Académia.
Em que época se passa esse segundo episódio?
– Quando Ivic era treinador do FC Porto.
O treinador da Académica era António Oliveira...
– Exactamente.
Foi pressionado, por duas vezes, para não prejudicar duas equipas, treinadas por António Oliveira?
– Vivi momentos muito difíceis.
PINTO DA COSTA PERMITIA DELANE
O parapsicólogo Delane Vieira diz que foi essencial na vitória há 17 anos.
– Na segunda refeição no hotel, em Tóquio, já Delane Vieira não teve a ousadia de sentar-se à mesa com o grupo. Até porque se ele se sentasse levantava-me eu.
Ele garante que previu a vitória da equipa e que ajudou mesmo a que nevasse...
– Pois, e eu estava farto dessas palhaçadas nem podia admitir que o trabalho de todos servisse para promover certas pessoas.
Mas ele trabalhava com o FC Porto...
– Pois trabalhava. E se o fazia é porque tinha cobertura. E se tentava desvalorizar o nosso trabalho é porque o presidente o permitia. De resto, na viagem de regresso ele foi queixar-se ao presidente porque estava a ser gozado pelos jogadores. Uma vez que ele disse que fez nevar, os jogadores diziam que, a partir dali, dispensavam os frigoríficos nas Antas porque Delano conseguia fazer gelo do nada. Foi-se queixar ao chefe como se tivessemos muito medo. Respeito sim, medo não.
Chegou a bater em Delane no Estádio do Bessa?
– Nem sei como é que ele não adivinhou isso.
"MOURINHO NÃO VIVEU FC PORTO COM PAIXÃO"
Mourinho diz sobre si que só tem currículo como adjunto.
– Como diz que não pertence à minha escola. É obvio que não. Formei-me na escola do pai dele, mas enquanto este ficou na quarta classe eu passei pelos melhores palcos europeus, excelentes universidades. Diz que nunca se cruzou comigo. Pois não. Como tradutor de Bobby Robson não terá vontade de lembrar os 3-0 no jogo da Supertaça, em Paris, nem a derrota na Taça de Portugal. Eticamente, sou melhor do que ele. Respeito os colegas como ele não faz. E tenho um passado enorme e grandioso como jogador uma vez que representei o meu país. Ele nunca o conseguiu. Por último, vivi o FC Porto com paixão e sentimento, coisa que ele nunca fez. Mas que seja feliz e dê continuidade à brilhante carreira.
A sua carreira como treinador acabou?
– Não sei. Nunca bati à porta de ninguém apesar de muitos terem batido à minha. E quem mais vezes o fez foi Pinto da Costa. Pelas posições que assumi em defesa das instituições onde trabalhei, tenho a consciência de que há muita gente com poder que não gosta de mim e muito menos do que eu digo.
Quando começa a escrever a autobiografia?
– Estava à espera que Pinto da Costa escrevesse o seu e o publicasse para começar. Vou ver se o leio e depois escreverei o meu. Modestamente, julgo que o meu testemunho será importante para contar às novas gerações o empenho e a dedicação de muitas pessoas que passaram por aquela casa.
PERFIL
Octávio Machado, presidente dos Bombeiros Voluntários de Palmela, apaixonado por vinhos e caça, começou a carreira como jogador, tendo representado o Palmelense, o V. Setúbal e o FC Porto.
Finda a carreira de jogador tornou-se técnico, tendo sido adjunto de Carlos Alberto Silva, Artur Jorge e Tomislav Ivic, no FC Porto, e de Waseige, no Sporting. Em 1996, assumiu o comando técnico dos ‘leões’. Já em 2001 rendeu Fernando Santos no FC Porto, mas meia época depois viu o seu lugar ser ocupado por José Mourinho.
Internacional em 25 ocasiões, Octávio tem no seu CV sete títulos nacionais, cinco Taças de Portugal, seis Supertaças, uma Liga dos Campeões, uma Supertaça Europeia e uma Taça Intercontinental.
Alexandra Tavares-Teles
Vale Azevedo
Uma vítima do "sistema"? O único ex-presidente do Benfica a quem foi retirada a qualidade de sócio do clube foi, no entanto, um dos maiores opositores ao sistema instalado no futebol português. Recordamos aqui uma entrevista dada ao Record em 13 Junho de 1999:
«Pinto da Costa encarna o clima de suspeição»
Entrevista de João Marcelino
Quando assumiu a presidência do Benfica, prometeu aos sócios um “Benfica à Benfica”. Parece-me que esta promessa está distante de ser cumprida, pelo menos do ponto de vista futebolístico. Qual é a sua opinião?
Só na perspectiva de não termos sido campeões se pode dizer isso. De resto, o “Benfica à Benfica” tem sido cumprido.
Em que áreas?
Em todas! Hoje temos um clube mais bem organizado, mais orgulhoso, liderante do ponto de vista desportivo...
Não a ganhar...
Por razões que toda a gente sabe!
Eu não sei.
(Ignorando a observação) ... Liderante porque as soluções que temos preconizado têm vindo a ser adoptadas por outros clubes. Estão a fazer escola.
Como por exemplo?
Olhe, as relações com a televisão, as relações com os empresários do futebol, a política de formação, etc.
Que relações mantém com os empresários de futebol?
As de sempre: o Benfica negoceia directamente com os clubes e a utilização dos empresários só é feita na perspectiva de eles serem representantes dos jogadores.
“Por razões que toda a gente sabe”, disse. Quer explicitar?
O Benfica tem mais dificuldade em ganhar do que qualquer outro clube. Há toda uma estrutura que tudo faz para que o Benfica não ganhe. O que é normal, de resto.
Normal!? Porquê?
Porque queremos limpar uma série de ervas daninhas que têm vindo a prejudicar o futebol português.
E essas “ervas daninhas” têm nome?
Têm, mas não me peça para os citar, toda a gente sabe quem são.
...
Às vezes, mais do que pessoas, há toda uma série de hábitos que se criaram e são prejudiciais. Por isso se vive um clima de suspeição permanente no futebol português. Daí resulta a falta de credibilidade e essa tem sempre o epicentro no FC Porto. Isso é inquestionável! Ainda há dias, numa revista alemã se salientava isso. Existe suspeição no favorecimento de determinados resultados, nas arbitragens... até no próprio sorteio dos árbitros!
Os sorteios também são suspeitos?
Na época passada, por exemplo, o FC Porto teve quatro árbitros que apitaram 17 jogos! Um era o José Pratas e os outros três eram do Porto. (efectivamente, Martins dos Santos dirigiu cinco jogos do FC Porto, contra quatro de Paulo Costa, Paulo Paraty e José Pratas)
Para si, os árbitros viverem no Porto é uma prova de desonestidade?
Não. Só digo que nesses 17 jogos o FC Porto nunca perdeu. Desconheço se árbitros são adeptos confessos do FC Porto. Apenas saliento a curiosidade de meio Campeonato disputado com a direcção dos mesmos árbitros - e sempre a correr bem para o FC Porto! São coincidências... E é por elas que eu digo: o Benfica, para ser campeão, tem de ser muitíssimo mais forte do que o FC Porto. Só ligeiramente melhor não chega!
Vamos, então, desenvolver a sua teoria: não há volta a dar a isso?
Há. E mais: no dia em que se der a viragem, o FC Porto vai voltar a estar 19 anos sem ganhar. Virá muita coisa à luz do dia. “Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades” - este é um ditado popular português que também não deixará de fazer aparecer muita coisa à tona de água.
O presidente do Benfica acredita, portanto, que o famigerado “sistema” existe...?
Claro que existe. Analise essas coincidências todas.
“Lata e Folclore”
O presidente do FC Porto, Pinto da Costa, queixa-se do sorteio. Isso contradiz o que o senhor acaba de dizer, não lhe parece?
Pois... é preciso “lata”!
O presidente do FC Porto, no último dia do Campeonato, afirmou que o “sistema”, se é que existe, mora a meia dúzia de quilómetros do Estádio das Antas, naquilo que toda a gente entendeu como uma alusão clara ao Boavista e ao predomínio desse clube em vários órgãos dirigentes do futebol português. O que pensa disso?
Faz parte do “folclore” dizer essas coisas. Na primeira vez que o Benfica foi jogar ao Estádio das Antas comigo a presidente, num jogo que a ganharmos viraria o Campeonato, marcámos um golo limpo [Kandaurov], como todos viram, e o presidente do FC Porto veio dizer que o abdómen era o braço. Curiosamente - lá estão as tais coincidências - o árbitro, António Costa, foi o mesmo que este ano dirigiu o Farense-Boavista, na penúltima jornada, da maneira que toda a gente viu. Pinto da Costa pode dizer as maiores loucuras porque perdeu a credibilidade.
O presidente do FC Porto é, para si, a representação de todos os males do “sistema”?
Talvez seja injusto dizer que ele representa tudo o que existe de mau. Digo, apenas, que encarna todo o clima de suspeição.
Não acha exagerado não conceder mérito algum à equipa de futebol de um clube que vence o Campeonato há tanto tempo consecutivo - cinco anos?
Repare numa coisa: de há dez anos a esta parte, o FC Porto tem tido resultados internacionais fracos. Piores, até, que os do Sporting e Benfica nas últimas participações na Liga dos Campeões. O Sporting, há dois anos, fez melhor do que o FC Porto. E, depois, vai ver-se o Campeonato português, logo a seguir, e o Sporting acaba em quarto lugar a não sei quantos pontos de distância. Com o Benfica sucedeu o mesmo este ano. Isto diz alguma coisa. Se a distância entre o valor das equipas fosse aquela que a classificação do Campeonato espelha era natural que o FC Porto andasse também a passear pela Europa. E todos sabem que não é assim. A realidade do futebol português é conhecida de todos - da opinião pública, dos jornalistas, dos dirigentes. Mas todos metem a cabeça na areia e tentam esconder a realidade.
Voltaria a dizer hoje o mesmo que em Coimbra, há vinte dias atrás, quando considerou o FC Porto um “campeão virtual”, “sem mérito”, e que “deixou o País indiferente”?
Claro! Não tem mérito! E não sou só eu a dizê-lo. O presidente do Sporting também o disse há muitos meses.
Não ouvi isso. Antes pelo contrário, José Roquette endereçou os parabéns ao FC Porto.
Disse, sim senhor, há uns meses, que o Sporting não reconhecia o campeão e que não havia verdade desportiva. Isso até foi mais grave.
Nessa altura nem sequer se sabia qual seria o campeão...
Bem, mas lá que tenha mudado o discurso é problema dele. Que disse, disse, está dito e é grave. Pela minha parte, mantenho o que afirmei. O FC Porto é beneficiado por um conjunto de circunstâncias e tem uma máquina de apoio nas pessoas que têm medo da mudança porque sabem que nesse dia cairão. Essa máquina vive à custa do futebol.
Propostas incríveis
Pode dar um exemplo de como funciona essa “máquina”?
Olhe, a nós, dirigentes, chegam as propostas mais incríveis e sempre com a mesma nota: “o FC Porto também faz isto.” Muitas vezes nem acredito. - Mas dê lá um exemplo, se faz favor. - Volto a dizer: até nem acredito nisso, porque sou uma pessoa de boa fé, que acredita nas pessoas e nas instituições, mas já me vieram oferecer a “compra” de guarda-redes em jogos importantes para deixarem entrar “frangos”; de defesas-centrais para fazerem grandes penalidades, deixarem passar os nossos avançados ou porem-nos em jogo em circunstâncias que permitissem o isolamento em direcção à baliza. Enfim, já nos propuseram muita coisa. E os preços até eram acessíveis. Se é verdade ou não, continuo sem saber porque nunca aceitaria uma coisa dessas.
E essas pessoas diziam-lhe que isso era uma prática do FC Porto?!
(Depois de tossir) Diziam-me sempre: “Se eles lá em cima fazem isso, você também deveria fazer.” E eu respondia: “Não acredito que eles lá em cima o façam.” Mas que há muito fumo em relação a isso, lá isso há. Até dirigentes me falaram dessas práticas. É o tal fumo... Compete à polícia investigar.
Acha que a polícia não tem investigado tanto quanto devia?
A corrupção, em qualquer sector de actividade, é sempre difícil de investigar. Demora tempo. Mas, volto a dizer, quando o sistema mudar, quando houver verdade desportiva, muita coisa se vai saber deste tempo que vivemos. Vão, acredito, aparecer muitos casos como o daquele Beira Mar-FC Porto, que veio a lume recentemente como sendo de clara corrupção. Claro que já tinham passado os prazos, quer do ponto de vista das sanções desportivas, quer do das sanções criminais. Mas toda a gente viu, num programa televisivo, pessoas a testemunharem terem sido corrompidas, incluindo jogadores. Estas coisas de que se fala à boca cheia, inclusive por pessoas da Liga, há-de acabar por apurar-se depois da necessária mudança. Nesse dia todos os clubes partirão em pé de igualdade.
Neste momento, o Boavista - e o presidente do FC Porto falou disso numa entrevista que me concedeu recentemente - tem muita gente à frente dos órgãos de decisão. E o Boavista também é, como o senhor diz, “lá de cima”. Isso não o preocupa? Não é um poder mau?
Naturalmente que não é saudável. É conveniente um maior equilíbrio e, sobretudo, haver pessoas que desempenhem os lugares com independência e sem clubite aguda.
Informação e discrição
Vamos fazer agulha, se não se importa, para o futebol do Benfica. Parece-me que os benfiquistas andam um pouco preocupados com uma certa apatia do clube num aspecto fundamental: o reforço da equipa. O Sporting e o FC Porto, é uma ideia geral, estão a apetrechar-se mais rapidamente. E os sistemas vencem-se com golos. O que tem a dizer a isto?
Não estou a ver quais sejam, por exemplo, os reforços do FC Porto...
Para já, os defesas brasileiros Argel e Ruben Junior e os portugueses Rodolfo e Paulo Ferreira...
Está bem... E isso é que são grandes reforços?
...
Vamos a ver: o que se passa é que, hoje em dia, as coisas no Benfica passam-se dentro da maior confidencialidade e discrição. O FC Porto, que era um clube mais fechado, não consegue manter o rigor desses anos e o Sporting também não.
Em relação ao Benfica, noto, nem há falta de nomes novos a aparecerem nos jornais todos os dias. O que faltam são negócios feitos...
Porque a informação está muito escondida. É ponto assente que não apresentaremos nenhum jogador antes da assembleia geral. A excepção foi o Enke por razões meramente burocráticas. Não queremos ser acusados na assembleia de amanhã de irmos para lá com trunfos na manga ou promessas de jogadores. Queremos que a discussão decorra num ambiente normal: o debate do orçamento, que é aquilo que se vai discutir, e não o debate de nomes de jogadores.
Que objectivos vai ter o Benfica para a nova temporada?
Os mesmos de sempre: ganhar todas as provas, sem excepção. Estamos convencidos que vamos apresentar uma equipa ainda mais equilibrada e forte. E esta época o Benfica já era o melhor plantel! Ainda há dias uma pessoa tão insuspeita quanto Pedro Gomes, comentador, técnico e sportinguista, o reconhecia.
E, se não chegar, terá sempre a desculpa do “sistema”...
Não é desculpa. Tem sido uma realidade. Mas desta vez vamos tentar ser tão fortes que não seja possível impedirem-nos de ganhar.
Que orçamento tem para aplicar no reforço da equipa?
Temos de possuir muito bom senso em matéria financeira. O clube ficou equilibrado economicamente e isso não pode ser alterado. Hoje o Benfica gera mais receitas do que as despesas que tem. Por outro lado, começamos a ter uma situação de equilíbrio financeiro, apesar de, neste particular, ainda pagarmos as agruras de um passivo que foi muito elevado e que nós conseguimos reduzir em 60%. Daí ficou uma tesouraria muito difícil que não pode ser comprometida. Antes pelo contrário. Precisamos de continuar a possuir muita tranquilidade para regularizarmos a situação financeira e continuarmos a pagar as dívidas do clube. Enquanto isso não for feito, as compras de jogadores têm de ser equilibradas com as vendas de outros jogadores. Não podemos gastar mais a comprar do que a vender. Não contem comigo para criar situações de ruptura financeira por atracção do abismo, ou seja, para comprar jogadores a valores superiores àqueles que o clube pode pagar.
O Benfica não parece possuir muitos jogadores capazes de despertar interesse no mercado internacional. Assim sendo como poderá o clube ter disponibilidade para fazer as tais aquisições que possam reforçar a equipa?
Não é verdade. Tenho propostas até para muitos jogadores do Benfica.
Mantém que o Benfica vai comprar apenas quatro jogadores?
É essa a nossa intenção: promover os jogadores da escola, formados no clube, que o conhecem e sabem a honra e a pressão de jogar com a camisola do Benfica.
Há ano e meio também disse isso e depois fez um pouco o contrário: o Benfica apostou em jogadores estrangeiros e até de idade avançada.
Não é verdade. O Benfica foi a equipa que mais jogadores jovens promoveu. Veja as estatísticas. O que existe é uma enorme máquina de propaganda montada a favor do FC Porto e do Sporting. A realidade, depois, é diferente. Aplaudo essa máquina de propaganda, mas a verdade é que o Benfica é o clube que mais aposta nos jovens. O FC Porto não tem um jogador na selecção de sub-20 ou de sub-21; um único jogador formado no clube e que seja titular com menos de 25 anos. O Sporting tem o Simão e pouco mais. O Benfica...
Está consciente de que os sócios do Benfica trocariam toda a lógica desse seu discurso por um Campeonato, não está?
Digo-lhe isto: é importante possuir uma base sólida. Se não, pode surgir uma vitória e ela ser ocasional. O Benfica está bem estruturado ao nível do futebol. O que se passou a época passada, e volto à sua questão, é que, a determinada altura, fizemos um pequeno desvio para tentarmos ser ainda mais fortes e chegar ao título. Repito-lhe o que disse há pouco: o Benfica, como o Sporting, reconheço isso, têm de ser muito mais fortes que o FC Porto se quiserem ganhar.
Momentos difíceis
Desde há algumas semanas, existe no seu discurso uma tendência nítida de aproximação ao Sporting. Continuo a notar isso hoje...
Não é aproximação, é reconhecer a realidade. Benfica e Sporting, para serem campeões, têm de ser muito superiores ao FC Porto em 20 ou 30% Caso contrário não conseguem ganhar. E no nosso caso isso é difícil. Não se esqueça que nós herdámos o clube em situação de ruptura total, completamente desmoralizado, completamente endividado e que podia fechar as portas ao fim de uma semana. O Benfica facturava cinco milhões de contos e tinha de passivo a 30 dias nove milhões e seiscentos mil contos! Com um passivo global de 15 milhões de contos! Perante uma situação destas, qualquer gestor ou financeiro do mundo diria que não havia outra alternativa a não ser fechar as portas e que a Instituição estava falida. Houve necessidade de tomar medidas dolorosas e daí algumas críticas. Passei por momentos dificílimos. No final de Dezembro de 97 pensei sinceramente que o clube fechava!
Nessa altura teve de começar a injectar dinheiro no clube. Onde o foi buscar?
A questão de fundo na altura era precisamente esta: “Vale a pena injectar dinheiro? Vale a pena assumir responsabilidades e avales? Isto não irá de qualquer maneira para o fundo?” A minha decisão de tentar recuperar o clube foi um enorme risco, até pessoal. Passámos uma situação dramática. Lembro-me que num jogo da Taça de Portugal, em Barcelos, com o Gil Vicente, faltei ao almoço e cheguei atrasado ao jogo, porque fui no carro todo o caminho a telefonar e a resolver problemas. Nesse dia o clube esteve à beira de fechar. A ruptura era gravíssima. Resolvi a situação “in extremis”, dois ou três minutos antes de chegar ao estádio.
Como conseguiu dar a volta à situação? Onde foi buscar o dinheiro?
Consegui resolver com os meus conhecimentos no mundo financeiro, a credibilidade que tenho e a ajuda de bons amigos.
E também com dinheiro do seu bolso?
Também.
Quanto dinheiro foi preciso injectar nessa altura?
Pessoalmente tenho uma conta corrente com o Benfica que na movimentação de dinheiros a crédito terá feito entrar no clube cerca de três milhões de contos. O Benfica devolveu-me cerca de dois milhões. O saldo anda, portanto, à roda do milhão de contos.
Máquinas de propaganda
...
Com esta situação não se podem fazer loucuras em contratações. As máquinas de propaganda do Sporting e do FC Porto dão ideia de uma realidade que não é verdadeira. O Sporting, no primeiro semestre deste ano, teve um prejuízo de um milhão e 500 mil contos. O FC Porto, também em seis meses, apresentou um prejuízo de 400 mil contos apesar de vender Doriva e Artur.
É no mínimo estranho que seja o senhor a pregar a austeridade a duas SAD’s...
Exactamente. Porque há uma máquina de propaganda que tenta limpar todas essas situações. Mas não se consegue esconder a realidade durante muito tempo. O Sporting escondeu essa realidade com a venda do Simão Sabrosa, mas isso é um erro gravíssimo.
Gostava que me falasse mais do clube que dirige: não estará a dizer isso para tranquilizar um pouco a massa associativa do Benfica?
Não é verdade. E não me venha com as grandes contratações do FC Porto e do Sporting. O que vejo é muito fumo, muita animação, propaganda. A informação vem cá para fora e do Benfica não se está a saber nada. Isso deixa-me particularmente satisfeito e permite-nos comprar bem. Não queremos enfiar mais barretes. O segredo é a alma do negócio.
...
Repare uma coisa: em quatro anos, entre 93 e 97, antes de nós entrarmos, o Benfica transaccionou 114 jogadores! E perdeu milhões de contos com essas transacções! Foram raros os jogadores com os quais ganhou dinheiro! Isso não pode ser! Com os jogadores que comprámos, ao contrário, tivemos sempre mais-valias. Tem de haver bom senso. Estamos fechados e por isso lhe digo: ninguém, mesmo ninguém, sabe o que se está a passar. Os jornais inventam nomes todos os dias e não acertam.
O caso Hanuch
Pode esclarecer o que se passou com o jogador Hanuch?
Ainda antes disso: os jogadores estrangeiros que vierem para o Benfica têm de fazer a diferença, de serem titulares indiscutíveis. Não queremos quem venham aproveitar o sol. E esta política está traçada há mais de um ano, fôssemos campeões ou não.
Já teve a oportunidade de dizer isso várias vezes. Podemos ir, então, ao Hanuch?
Espere só mais um pouco. Quero acrescentar isto: o nosso pequeno desvio da época passada foi para reforçar as possibilidades de ganhar aquele campeonato. Era importante que o sistema mudasse e...
Desculpe, mas já se percebeu a sua mensagem. Gostaria, então, que me desse o ponto de vista do Benfica sobre o caso-Hanuch. O que aconteceu?
O Hanuch foi oferecido ao Benfica e observado pelo nosso técnico. A partir daí, fizemos uma determinada proposta. O clube do jogador fez uma contraproposta que não aceitámos por a considerarmos demasiado elevada. Mais nada.
Isso passou-se quando?
Há cerca de um mês. O nome do Benfica só continuou ligado ao processo por interesses vários, dos empresários...
José Manuel Capristano, vice-presidente do Benfica, falou muito depois disso do interesse do Benfica...
Para despistar. Não nos interessa que falem dos jogadores que efectivamente queremos. A proposta que fizemos para o Hanuch foi há um mês, estava ainda o nosso técnico, Jupp Heynckes, na Argentina.
Ok, o Hanuch está verde...
Curiosamente, deixe-me dizer-lhe isto, a contraproposta que achámos elevada era quase metade do dinheiro que o Sporting terá pago pelo jogador. Isto a acreditar nas verbas vindas a lume na Imprensa. E eu sei que às vezes também se especula um bocado.
Quanto lhe pediram por Hanuch?
Dois milhões e meio de dólares.
E foi isso que o Benfica achou demasiado?
Sim, foi.
Bossio e Pizzi
Outros nomes que têm sido referenciados são os do guarda-redes Bossio e do ponta-de-lança Pizzi. Quer comentar?
O nome do Benfica, pela sua grandeza, serve para promover muita gente. O caso do Hanuch, insisto, é típico. Percebi logo, quando se continuou a falar do interesse do Benfica depois de termos desistido, que se estava a preparar uma ida para outro clube. Acabou por ser o Sporting. Nós não vamos nesse tipo de conversa. Hoje em dia, só compramos de acordo com as nossas convicções e de acordo com o dinheiro que temos.
Pizzi chegou a interessar ao Benfica?
É verdade que fizemos uma proposta. E sabe uma coisa? O Pizzi aceitou a proposta do Benfica! Só que depois apareceu o empresário de premeio, pôs-se a fazer exigências e o Benfica desistiu. Mas já vi na Imprensa precisamente o contrário! É completamente mentira! Nós temos a faca e o queijo na mão. Há poucos clubes que possam pagar como o Benfica...
... É curioso que diga isso...
Repare: o Benfica está entre os maiores dez clubes do mundo em receitas.
Mais uma razão para poder comprar bons futebolistas...
Não! Mais uma razão para apostarmos na limpeza do passivo. Se tivéssemos começado da estaca zero seria diferente. Mas, agora, o Benfica tem de limpar completamente a parte financeira para depois aparecer em toda a pujança, que efectivamente possui, a comprar jogadores excepcionais por verbas excepcionais. Neste momento seria um erro. Não quero que mais alguém venha a sofrer no Benfica o que eu sofri. E de tal modo sofri que houve pessoas que não aguentaram e saíram... enquanto outras arregaçaram as mangas, arreganharam os dentes, e foram à luta. Foi duro aguentar.
Bossio, o guarda-redes, interessa ao Benfica?
Fala-se em muitos nomes mas não lhe vou confirmar nenhum. Depois da assembleia geral de amanhã, na altura própria, iremos apresentar com calma os jogadores. Uma coisa, no entanto, digo aos benfiquistas desde já: o Benfica vai ter um plantel melhor do que o actual. Vai haver, naturalmente, compras e vendas. E não há jogadores inegociáveis ou insubstituíveis. Que fique bem claro isso, assim como o seguinte: enquanto for o presidente, o Benfica irá apostar muito nos jovens e nos jogadores formados no clube. Quanto aos quatro estrangeiros, cumpriremos a promessa de serem reforços efectivos da equipa.
Falar de Souness
Está arrependido de ter contratado Souness?
Relembre-se o enquadramento: eu contratei o Graeme Souness como candidato a presidente, numa luta eleitoral. Isso apenas permite uma escolha limitada. Mas, dentro dessas limitações, reafirmo: Souness era o melhor dos quatro ou cinco nomes com quem falei. Se na altura fosse já presidente teria sido muito diferente. Possivelmente escolheria outro treinador porque teria uma hipótese de escolha alargada.
E, se pudesse voltar atrás, teria prescindido de Souness mais cedo, até em face da contestação dos sócios?
É difícil dizê-lo. Vou fazer-lhe uma confidência: o ano passado, por esta altura, reflectimos muito a propósito de Souness ser o treinador certo para a época que se iria seguir. Esteve sobre a mesa a possibilidade de alterar a equipa técnica do Benfica.
Reflectiu com quem?
Com o senhor José Capristano e uma ou outra pessoa responsável do clube.
É curioso que diga isso, pois o curto período de Souness até aí, percebe-se hoje, foi o melhor dele no Benfica.
(Tossindo) Tinha feito um belíssimo trabalho, sem dúvida, mas já tínhamos algum receio que não fosse o treinador para gerar os tais 20 a 30% de superioridade que o Benfica precisava para ganhar o Campeonato ao FC Porto. Havia que dar um salto grande sobre o “sistema”.
E tinha a sensação que Souness não servia para isso?
Tínhamos a sensação que o Benfica precisava de ligeiramente melhor. Um Benfica igual ao do ano anterior não bastaria para ser campeão, como veio a provar-se. Há pequenas coisas que são difíceis de explicar. Só quem está por dentro do futebol o percebe... O Benfica sofreu muitos golos nos últimos minutos e para lá da hora. Isso tem o significado.
Pode ter, mas parece-me que não tem nada a ver com o treinador, sobre quem estávamos a falar...
Tem. Apesar de tudo não perderíamos se estivéssemos a ganhar por dois ou três a zero.
Souness não era suficientemente ambicioso para o Benfica? Parece-me estranho que diga isso. Se Souness tinha alguma coisa era, talvez, uma ambição desmedida, acima das possibilidades dos jogadores...
Não estou a falar de ambição. Precisávamos de uma pessoa mais sofisticada.
Não quererá, antes, dizer que o Benfica precisava de um treinador que trabalhasse e fizesse trabalhar mais e que também não se ausentasse tanto de Portugal e tivesse complexos de superioridade sobre a valia dos adversários?
Quando digo sofisticado estou a referir-me a muitos níveis. Talvez alguns desses e outros. Tínhamos de subir mais um degrau...
E não subiram nem dispensaram Souness...
Acabámos por acreditar que talvez viesse a haver mais verdade desportiva. Foi um erro de avaliação.
Contactos com Heynckes
Quando pensou, então, depois disso, na saída definitiva de Souness?
Em Dezembro último. Os contactos com Jupp Heynckes remontam a essa altura.
Com outros treinadores também?
Naturalmente. Falámos com vários. Aí o processo de escolha foi diferente. Como presidente do Benfica assisti a uma situação inversa da que tinha conhecido no processo da contratação de Souness: todos os treinadores queriam trabalhar no Benfica. Era uma grande honra para eles estarem a falar comigo. Como candidato encontrara uma desconfiança natural e normal.
Voltará, algum dia, a dar tanta autonomia a um treinador quanto aquela que deu a Souness?
É uma falsa questão. Souness não tinha essa autonomia que pretende que ele tinha.
Mas parecia, desculpe. Pelo menos para comprar e vender jogadores. Era ele quem trazia e levava para o mercado britânico...
Não é verdade. Não tinha essa autonomia. Agora a questão do mercado britânico... era normal! É um mercado que ele conhecia bem e estávamos no tal desvio ao projecto, de curto prazo, para tentarmos o reforço tendente à conquista do Campeonato. Essas contratações visaram isso.
Passemos à frente. Hoje isso já tem um interesse limitado. Essas compras como a venda de Deane...
(Sem ouvir) Mas tivemos sempre de enfrentar imensas dificuldades: as multas e os processos da Liga, a Imprensa sempre a desestabilizar, muitos “opinion makers” sempre a escrever contra o Benfica. Enfim, o estigma permanente do contra. Foi por isso que resolvemos optar por comprar alguns jogadores mais experientes e da confiança do treinador...
Com os resultados que se sabe, aliás. Mas eu gostaria de passar à frente nessa matéria e falar do futuro.
(Insistindo) Digo-lhe, no entanto, outra coisa: ao fim de algumas jornadas vi logo que era impossível ser campeão. Falava de maneira diferente porque era importante motivar os jogadores e as nossas hostes, mas achava que era praticamente impossível ganhar. As pessoas que se moviam à minha volta sabem que estou a dizer a verdade. Foi o que se passou com José Roquette no Sporting. Mas esse disse-o de viva voz. Como está o “sistema” em Portugal, torna-se muito difícil a qualquer equipa que não o FC Porto ganhar.
Lá está a puxar o Sporting para o lado do Benfica...
... A não ser que os clubes se unam mais e comecem a banir muitas ervas daninhas do futebol. Se isso acontecer, e se o Benfica e o Sporting se reforçarem, então é possível discutirmos o título.
Outra pergunta concreta em relação a Souness: quem estava de fora pensou sempre que a relação dele consigo era de extrema cumplicidade. Por isso mesmo, tornou-se ainda mais estranho que tudo tenha terminado da maneira violenta que se conhece. Não concorda?
Não. Lamento que a relação com Souness tivesse acabado daquela maneira, e muito sinceramente o digo. Mas, quanto à cumplicidade, digo-lhe apenas isto: o presidente tem sempre de apoiar o treinador até ao fim. Incondicionalmente! O meu apoio a Souness foi aquele que daria, e darei, a qualquer outro.
Se começou os contactos com Heynckes em Dezembro, porque quis levar Souness até ao fim?
Porque não se justificava mexer antes do final da época. Era preciso estabilidade. Mesmo os técnicos com quem contactei me chamaram a atenção para esse aspecto. Todos eles. Alterações naquela altura poderiam ser fatais. Lembre-se que até ao jogo com o Boavista o Benfica se encontrava a um ponto do FC Porto. Em Março, no último terço do Campeonato.
Souness sairia mesmo que ganhasse?
Sim. O contrato com o sr. Jupp Heynckes foi celebrado muito antes de ser conhecido na Imprensa, o que demonstra como o Benfica está fechado. Heynckes passou três ou quatro dias em minha casa em finais de Fevereiro, princípios de Março. Assinou contrato e começámos a planear a próxima época. Eu mesmo estive na Alemanha em casa dele e ninguém soube. Isso demonstra que o Benfica está no bom caminho. Posso dizer-lhe que hoje 99,9% das informações que vêm na Imprensa sobre jogadores são falsas ou especulativas. Estamos bem contentes com isso.
"Desagradável surpresa"
É verdade que Souness o ameaçou numa daquelas últimas conversas?
Por razões de decoro, e de defesa do próprio clube, não é conveniente falar sobre esses aspectos.
Foi uma conversa desagradável?
O comportamento do senhor Souness acabou por ser uma desagradável surpresa. Esperava outra dignidade na saída. E tenho pena que ele tenha saído daquela forma, auto-excluindo-se, porque na verdade ainda é treinador do Benfica. Está com um processo disciplinar, mas tenho pena que tenha feito o que fez, dito o que disse. Muita, muita pena.
Há quem diga que todo este processo é uma tentativa de não pagar a Souness aquilo a que ele tem legitimamente direito. Como responde?
É completa demagogia. É a tal máquina de propaganda a funcionar. E de uma maneira esquizofrénica. O mercado precisa de um Benfica positivo e há quem arranje tudo para dar notícias negativas. Vê sempre o copo vazio em vez de meio cheio. É uma realidade dos últimos anos. A diferença, agora, é que nós respondemos e vamos demonstrando, na prática, que isso não é verdade. E temos dada tanta bofetada de luva branca que essa máquina de propaganda está a mudar ligeiramente.
Essa má vontade informativa é de quem?
Global.
Mas se o Benfica é o maior clube de Portugal...
(Interrompendo) Por isso mesmo. O Benfica é grande de mais, maior do que Portugal. E como passa as fronteiras do País, o mercado do futebol, na ânsia de vender mais à custa do Benfica, faz tudo. Vale tudo, até arrancar olhos. Mas sobretudo alguma Imprensa...
Gostava que fosse mais explícito.
Estou a falar globalmente. Há sempre excepções, é claro, mas a regra é atacar o Benfica e o seu presidente. Em qualquer processo, judicial ou outro, o Benfica vai perder! Logo! Na FIFA perdemos qualquer queixa. Vamos descer de Divisão. Vamos ser banidos de todas as provas. Vamos perder o processo com a Olivedesportos e pagar oito milhões de contos. Pelo Paulo Madeira teríamos de pagar 400 mil contos ao Belenenses. Pelo Paulo Nunes era um milhão de dólares. Enfim, poderia dar-lhe dezenas de exemplos nos quais o Benfica teria e terá um final trágico! Coisas gravíssimas! O presidente pendurado na corda! Isto é a realidade de quem lê os jornais!
Está a generalizar, embora ache que tem razão em algumas coisas que diz e em relação a órgãos de informação específicos e...
(Embalado) Não estou a generalizar. E depois o que acontece? Afinal o Benfica não desceu de Divisão, não foi corrido das provas da UEFA, não pagou qualquer verba pelo Paulo Madeira, venceu todos os processos postos na FIFA, afinal o Manchester dá-se bem com o Benfica, afinal o Sheffield United até nos vende outro jogador, enfim! Esta é a realidade! E quem diz os jornais diz a rádio e a televisão. É o clima geral.
Espero que ao menos da SIC não tenha razões de queixa...
(Sem se deter) E depois, antes de verem o lado positivo da decisão positiva, metem essas notícias em pé de página. Cheguei a zangar-me com alguns jornais nos casos do Manchester e do Sheffield porque o Benfica est va a defender os seus interesses e a Imprensa é que nos atirava para o fundo. Nem em Inglaterra os jornais nos tratavam assim. E essa ansiedade e tragédia obrigou o Benfica a prejudicar-se. Fizemos um acordo bom, mas poderia ter sido ainda melhor. Agora com a Olivedesportos é a mesma coisa. Antes e depois das sessões perdemos sempre! Há sempre coisas gravíssimas da parte do Benfica. E é ao contrário: a Olivedesportos é que deve dinheiro ao Benfica!
Inquéritos a treinador
O tribunal apurará isso. Mas eu gostava de voltar a Souness. Quais as razões pelas quais o Benfica lhe instaurou os inquéritos?
O primeiro, colocado a Souness e Phil Boersma, tem a ver com questões passadas nos treinos na semana anterior ao jogo com o Campomaiorense e durante o próprio jogo.
Coisas para além daquelas que vieram a público?
Sim. Esse inquérito levou à suspensão. E depois foi-lhe instaurado um processo disciplinar com base nas declarações que fez numa segunda-feira, 3 de Maio, no Estádio da Luz. Esse é um processo para despedimento. O Phil Boersma também veio a ter um processo disciplinar mais tarde por declarações feitas numa entrevista a um jornal desportivo, uns dias mais tarde, contra o clube e alguns dos nossos jogadores.
Voltaria a fazer aquela Conferência de Imprensa em que acusou alguns jogadores do Benfica de serem ricos e mimados?
Naturalmente. Entendo que a cultura recente do clube privilegiou a riqueza e o mimo em vez da ambição e da vontade de vencer.
O que está a fazer para inverter essa tal cultura?
Vamos apostar em jovens formados no clube em quem será incutido esse sentimento da necessidade da vitória. Primeiro há que vencer. Depois pode haver a compensação monetária. Tem de haver respeito pelo Benfica e eu posso dizer-lhe que esse é outro mal. Há alguns jogadores que não respeitam o clube.
De que forma isso se manifesta?
Por exemplo, falam quando querem e lhes apetece. O jogador tem de respeitar o clube e não pode dizer mal dele, colocar o Benfica em causa ou ameaçar com acções em tribunal, etc., etc.
Esses jogadores sairão durante este defeso?
Qualquer jogador que coloque o Benfica em causa, falando quando não deve ou sem estar devidamente autorizado, terá sanções disciplinares muito pesadas.
Não acha isso uma limitação à liberdade individual do cidadão futebolista?
Não. O senhor, por exemplo, como Director do jornal, também não anda a dizer mal do patrão.
É curioso: não me lembro de um jogador que tivesse dito mal do clube...
Qualquer declaração que ponha em causa o clube, os companheiros, o treinador, os dirigentes, os sócios ou os adeptos é grave. O jogador é para jogar, não para falar e muito menos de coisas que lhe não dizem respeito. Não têm de comentar as opções do treinador e se o companheiro que lhe rouba o lugar é melhor ou pior. Só tem é de se esforçar nos treinos para reconquistar o lugar. Não podemos admitir que jogadores façam isso e usem os jornais para promoverem determinadas mensagens.
JVP a Preud'Homme
Disse há pouco que o Benfica não tem jogadores inegociáveis, portanto isso também é válido para João Vieira Pinto...
(Interrompendo) Qualquer jogador!
O que pretendo saber é se o João Vieira Pinto é, para si, o capitão de que o Benfica precisa?
É o actual capitão do Benfica.
Isso eu sei. O que pretendo saber é isto: quando o senhor falou em jogadores ricos e mimados toda a gente pensou em alguns nomes, nomeadamente no capitão, que é também o futebolista mais emblemático do clube. É legítimo fazer esta associação?
Não é legítimo fazer qualquer referência a qualquer jogador. Eles sabem a quem eu me referi.
Disse-lhes directamente quem eram?
Eles sabem a quem, no balneário, eu me referi. Fiz o meu discurso aí. Tudo o que se possa dizer agora sobre isso é puramente especulativo e não faz sentido.
Enke pode ser vendido ainda antes de vestir a camisola do Benfica?
Temos uma proposta. E como não há jogadores inegociáveis...
Que outros jogadores podem sair?
Não vou falar disso. Há vários, mas o segredo é a alma do negócio.
Preud’homme não vai continuar como jogador?
Não falo sobre situações que não estão na altura de ser publicitadas.
Quando o vai fazer?
Na altura oportuna. Todos os jogadores com quem não contarmos serão informados pessoalmente das nossas intenções. Só depois haverá divulgação pública. Nenhum deles saberá pelos jornais.
Desculpe insistir. Parece ser nítido que o Benfica se quer desfazer da componente britânica do plantel. Faço só uma pergunta: de que maneira conta convencer Thomas, um jogador aparentemente sem mercado, a abandonar?
Não sei se é nítido ou não. Por acaso, neste momento temos uma proposta para o Thomas. Está a ver?
Caso Hugo Leal
Qual é o ponto da situação do caso-Hugo Leal?
Tem contrato até 2003 e, como se sabe, colocou o Benfica em tribunal ou, melhor dizendo, em xeque na Comissão Paritária. E, no entanto, tinha assinado esse contrato de livre vontade, assim como o seu pai. Não é uma situação que me dê satisfação.
Desconhece que o jogador assinou um compromisso com o Atlético de Madrid e pretende ter apenas mais um ano de contrato com o Benfica?
Desconheço as intenções do jogador, mas naturalmente não fico feliz. Assim como não fico feliz que um jogador do Benfica vá passear para o Porto para demonstrar que tem boas relações com o FC Porto
...
É óbvio que o futuro desses jogadores no Benfica será mais limitado. O Hugo Leal, volto a esse caso, colocou em causa o Benfica - e eu não admito isso a qualquer jogador, seja ele quem for. A atitude do Hugo Leal, se for da responsabilidade dele e eu ainda tenho esperança que não seja, coloca uma nódoa na relação com o Benfica.
Não é, portanto, um jogador com queira contar no futuro?
A questão não é essa. Em termos de Benfica, o Hugo Leal não se portou bem. E, naturalmente, pomos algumas reticências.
É curioso que Jupp Heynckes se mostre precisamente preocupado com a continuação de Hugo Leal, não acha?
Não bastam as qualidades técnicas no campo. Há outras que também têm de ser consideradas. A filosofia vai ser diferente. Temos de apostar em jogadores que sintam a camisola do Benfica e respeitem o clube.
Política de empréstimos
O Benfica tem claramente definida a política de empréstimos para a próxima época?
Tem. Vamos privilegiar os clubes mais amigos, naturalmente.
O Santa Clara está nesse lote?
Naturalmente. É uma filial. Fizeram-nos um pedido e vamos tentar satisfazê-lo.
A aposta no Alverca irá manter-se?
Sim, também. E há outros.
Resumidamente, o que espera de Jupp Heynckes?
É um treinador que esperamos venha a fazer um bom trabalho em muitas áreas, nomeadamente na tal mudança de mentalidade e de hábitos de trabalho. O “dolce fare niente” já vem de há muito tempo, não era um exclusivo da época do sr. Souness. Queremos treinos mais duros e maior envolvimento dos jogadores no clube. Pelo seu passado e experiência, temos confiança em que tem condições para o fazer.
Defender a estabilidade
O senhor dirige um elenco fragilizado por demissões. É legítimo pensar que poderá desencadear a realização de eleições a curto prazo?
Tenho defendido a estabilidade do Benfica até ao limite. Se sentisse essa fragilidade, de que fala, não teria continuado a apoiar o clube da forma como ainda o fiz há alguns dias, com um pagamento substancial... Meio milhão de dólares [cerca de 90 mil contos].
Se tivesse a Direcção mais preenchida, provavelmente não correria tantos riscos na próxima época. Há sempre a possibilidade de mais uma demissão a meio do caminho. No sentido de conseguir a estabilidade talvez fosse preferível para si as eleições. É por isso que coloco a questão.
Às vezes são melhores poucos e bons. Há que confiar nas pessoas. E eu confio em quem me acompanha cegamente.
Coloca de lado definitivamente a questão das eleições antecipadas com o senhor a provocá-las?
Não vejo razões para isso.
Como viu as intervenções públicas de António Sala na área do futebol na época passada?
Já se falou demasiado nesse assunto. Ele sabe qual é a minha opinião e essa é a que importa, não é a opinião pública.
Quem é o número dois do seu elenco?
O sr. José Manuel Capristano. Desde o início. É uma pessoa com um conhecimento profundo do clube, ao qual dedica muito tempo.
Sporting "enganado"
Nesta entrevista, como nos últimos tempos, tem tido declarações que indiciam um desejo de aproximação ao Sporting. É legítima esta interpretação?
Não sei se é legítima. O que sinto é que o Sporting tem muitos problemas idênticos aos do Benfica e foi muito enganado na “santa aliança” com o FC Porto. O Sporting é um clube nacional, o segundo, com muitas tradições. É mais legítimo um Sporting independente, a decidir pela sua cabeça e sem estar ligado ao FC Porto. Penso, aliás, que o Sporting já percebeu que a ligação ao FC Porto não lhe trouxe benefícios.
Quer, então, o Sporting ao seu lado na luta contra o tal “sistema”...?
Quero é o Sporting a defender os seus interesses e do futebol português.
Como vê, de fora, o caso-Toñito?
É sempre lamentável esse tipo de situações.
Estava à espera de um conflito assim entre o Sporting e o FC Porto?
Pensava que ambos os clubes tivessem percebido que este tipo de disputas só os prejudica.
Qual é o dirigente desportivo com quem tem melhores relações?
Tenho boas relações com quase todos. São poucos os que estão na situação contrária. Mas como não admitimos determinados comportamentos, nesse perspectiva decidimos não nos misturar.
Como estão as relações com a Liga e o major Valentim Loureiro?
Temos boas relações com o major Valentim Loureiro, mas entendemos que a Liga tem de mudar muito. Não pode ser acusada de favorecer o FC Porto ou o Boavista.
O FC Porto é dos clubes que mais se tem queixado.
Lágrimas de crocodilo. É para tentar tapar os olhos às pessoas.
A Assembleia Geral
Segunda-feira vai apresentar aos sócios o orçamento para a próxima temporada. Quais são as linhas mestras do documento?
Pela segunda vez, é um orçamento de estratégia, ainda mais sofisticado que o do ano passado. Justificamos o porquê das despesas e das receitas. O documento prova que o Benfica está estável economicamente. O clube tem mais receitas do que despesas.
O orçamento aponta para um lucro de 143 mil contos...
Sim, o lucro depois de amortizações, provisões, etc. Mas, na realidade, o clube vai libertar dois milhões e 400 mil contos positivos. É essa a diferença entre as receitas e as despesas, o que permite a libertação de um passivo absolutamente agonizante.
Qual o montante desse passivo?
Reduzimo-lo em cerca de 60%. O passivo não é uma coisa estática, ao contrário do que algumas pessoas possam pensar, mas a 30 de Junho de 1999, dependendo de alguma coisa que possa acontecer - compra de jogadores, por exemplo -, será da ordem dos cinco milhões de contos.
Isto significa que...
(Interrompendo) Significa que o diminuímos em cerca de oito milhões de contos.
De que forma promoveu esse abatimento?
Com a venda de terrenos e o “cash flow” originado por outras transacções, como a venda de jogadores. O Benfica tem gerado riqueza para diminuir o passivo, o que é muito bom. Quando aqui chegámos tínhamos um prejuízo de 300 mil contos por mês. É bom não o esquecer.
O Benfica deve à banca?
Quase nada. Devemos apenas cerca de 100 mil contos de um pagamento que não nos interessa antecipar. Quando cheguei devíamos três milhões e seiscentos mil. É só para ver as diferenças.
Como se compõe, então, o passivo?
De dívidas a fornecedores. E aí estão incluídos os jogadores cujo pagamento é feito a um ano, dois anos, diferido no tempo. Isso é passivo. Por isso é que, atrás, lhe fiz a ressalva do passivo a 30 de Junho próximo. Podemos comprar jogadores e assumir outros encargos. Isso é normal.
O ciclismo está a dar lucro?
Neste momento não, mas não estávamos à espera que desse no primeiro ano. Seria um milagre. De qualquer maneira, é preciso analisar as receitas indirectas, por exemplo na venda de “merchandising”, na loja móvel, etc.
Quanto custa o ciclismo ao Benfica?
Não é significativo. Gastamos menos do que com o basquetebol e mais ou menos o mesmo que com o hóquei em patins.
EURO 2004 e G14
Acredita no Euro 2004 em Portugal?
Acredito. Temos todas as condições para isso. Quem anda lá por fora só tem receio por ouvir falar nas tais arbitragens, nos tais resultados esquisitos...
Se calhar também nos problemas do Benfica com o Manchester e com Souness...
Não, não se fala. Isso é empolado cá em Portugal. Se não, não contrataria o técnico que contratou e os jogadores que está a contratar. Por isso me indignei. Acha que Heynckes viria para Portugal se o Benfica fosse só aldrabice e vigarice, cheque carecas, como se diz por aí, em alguns círculos.
Já agora diga-me os nomes dos tais futebolistas de prestígio...
(Sorrindo) Não digo. Fica para a altura devida.
Porque não está o Benfica no Grupo dos G14?
O Benfica é o segundo clube do “ranking” da UEFA. Face ao seu prestígio e ao mercado que tem - a facturação do clube coloca-o entre os dez maiores clubes da Europa - não está preocupado com isso. Mas é preciso lembrar como se formou o G14, a partir do embrião de 5/6 clubes (ganhadores de provas europeias por mais de cinco vezes), por causa dos assuntos da Superliga e das relações com a UEFA. Esse núcleo alargou-se por motivos vários. Por exemplo, chegou-se à conclusão que não fazia sentido estar lá o Liverpool e não estar o Manchester. E por aí adiante. Ora na véspera da primeira grande reunião, o sr. Pinto da Costa ligou ao presidente do Real Madrid, Lorenzo Sanz, para ir a essa reunião. Acabou convidado e ficou. Mas vários clubes desses nos têm contactado. Não percebem como Portugal está representado por um clube inferior ao Benfica em termos económicos, de “ranking” e de massa associativa. Realmente não faz sentido. A explicação que adiantam é mesmo essa: neste momento, dada a correlação de forças, interessa-lhes que lá esteja um clube pequenino, que seja o porta-voz dos pequenos da Europa. O Benfica, também lhe digo, nunca lá iria para se colocar em bicos de pé para as fotografias. O Benfica estará sempre numa posição interventiva. De qualquer maneira, repare, estas reuniões têm sido desvalorizadas. Na última só estiveram os presidentes dos dois clubes espanhóis e do português.

