O caso Deco ou o caso da "bota"

Exclusivo Correio da Manhã - 16-04-2007
As pressões exercidas para que Deco, jogador do FC Porto, não fosse punido no caso que ficou conhecido como o da ‘bota’ – um incidente ocorrido no final de Outubro de 2003, num jogo Boavista-FC Porto, arbitrado por Paulo Paraty – podem ser conhecidas através da leitura das escutas telefónicas no âmbito do processo ‘Apito Dourado’. As transcrições estão anexas ao processo e sustentam uma das certidões que se mantém em investigação no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) do Porto. Pinto da Costa e Valentim Loureiro estão indiciados por tráfico de influências. Mas as conversas envolvem muitos outros intervenientes. Designadamente, Antero Henriques e Adelino Caldeira, dirigentes portistas, e também Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e Pinto de Sousa, dirigente da arbitragem.

Punido inicialmente com três jogos de suspensão, o castigo foi diminuído para dois, por intervenção da Federação. Pinto da Costa tinha falado dias antes com Gilberto Madaíl, alertando-o de que Deco ameaçava não jogar pela Selecção e não representar Portugal no europeu.

Nas mesmas escutas anexas ao inquérito ‘Apito Dourado’, pode ainda ler-se uma conversa de Pinto da Costa com Pinto de Sousa onde o dirigente da arbitragem garante ao líder portista que já falara com o árbitro Paulo Paraty. O receio de ambos era que o relatório falasse de uma agressão, mas Pinto de Sousa deixa Pinto da Costa descansado: “Eu dá-me a ideia de que não vai utilizar a expressão agressão, de modo nenhum!”

Para as autoridades, este caso assumiu especial gravidade por se tratar de um dos principais jogadores. Deco era uma peça fundamental na equipa que meses depois se sagrou campeã europeia e foi também um dos atletas cuja transferência rendeu uma mais elevada maquia para os cofres do clube.

Estas escutas são anteriores ao caso Mourinho, que o CM noticiou na edição de ontem, mas fazem parte da mesma investigação. Na certidão enviada para o DIAP do Porto, Carlos Teixeira, magistrado de Gondomar, alertou ainda para a alegada promiscuidade com os magistrados que presidiam os órgãos disciplinares da Liga. Mais uma vez, o nome dos juízes foi referido nas escutas.

LEIA TUDO SOBRE O QUE ELES DISSERAM NAS ESCUTAS

VALENTIM LOUREIRO

“O gajo diz que atirou ostensivamente a bota ao árbitro”

Pinto da Costa sabe que o delegado da Liga escreveu que se tratou de uma agressão. Telefona a Valentim Loureiro a protestar pelo teor do relatório.

Pinto da Costa (PC) - Estou?

Valentim Loureiro (VL) - Então, ilustre presidente!

PC - Como?

VL - dono do prédio das Antas!

PC - Já sei!

VL - Fala o inquilino! Está tudo bem ou quê?

PC - Olhe não está nada tudo bem, que lá o delegado da Liga é um filho da puta!

VL - Quem é o gajo?

PC - É

VL - Eu não sei, nem sei quem foi O sr. Óscar!

PC - É mas é um o gajo é mentira! Eu estive a ver as imagens

VL - Ah, já?

PC - o gajo atira ostensivamente bota para o chão e o gajo diz que o atingiu atirou ostensivamente a bota ao árbitro e que o atingiu, o que não é verdade! VL - Mas o árbitro mas o árbitro também não diz qualquer coisa disso?

PC - Não, o árbitro diz que lhe lançou lançou a em direcção a ele a bota (...) agora, o outro é que diz que atirou ostensivamente, o que é mentira! ( ) Ó pá, é fodido ser expulso injustamente

VL - Eu percebo, eu percebo.

PC - e reage, pá!, que o gajo é que lhe tira a bota o gajo diz: “Saltou-lhe a bota.”

VL - Mas, ó Jorge, você veja veja aí com os seus serviços como as coisas poderiam conduzir-se para minorar os efeitos, pá ponha aí alguém a estudar isso, pá!

PC - Pois, isso já estão!

VL - a estudar isso porque a estudar essa merda porque é esta coisa e que vem nos jornais é estúpido.

PC - Aquele Paraty Paraty é uma merda! Nem

VL - Ó pá uma merda

PC - não tem categoria para um jogo daqueles!

VL - Sim, não o gajo ali chegava, matava a jogada e tal

PC - Já sabe quem saiu para a Taça?

VL - Quem?

PC - Porto-Boavista! ( )

VL - Lá vai o Boavista descansar, caralho. Foda-se!, o caralho!

PINTO DA COSTA

Pinto da Costa fala com Pinto de Sousa sobre o relatório de Paraty. Que já garantira ao presidente da arbitragem que não iria utilizar a expressão “agressão”.

Pinto de Sousa (PS) - Olha, é o seguinte (...)

Já falámos portanto, eu dá-me ideia que não vai utilizar a expressão “agressão”, de modo nenhum!... portanto, ele até disse, muito contritamente: “Não, eu não sou vilão!” e, portanto, não vai utilizar a frase portanto, será o comportamento incorrecto, etc., etc., pronto!, e isso foi o e até, inclusivamente, ele disse: “Já estou estou a ser convocado pelo Conselho de Disciplina ” até podias dizer ao Adelino Caldeira que ele vai ser ouvido pela Comissão Disciplinar da Liga ( ) Não convém dizer nada só nós é que sabemos, não é?

PC - Claro, claro!

PS - ( ) Agora, ficaria bem, pá, ouve lá!, e ajudava muito, vê lá se podias fazer isso, pá, que alguém do FC Porto, talvez o Reinaldo Teles e o Deco telefonarem a pedir desculpa, pá! ( ) vês algum inconveniente nisso?

PC - O Reinaldo não vejo problema (...)

PS - E o Deco! E o Deco!

PC - Ó!, muito menos! Ah, ah, ah!

PS - Porquê?

PC - Mas foi ele que deu a ideia, não?

PS - Foi ele que deu a ideia, pá ( ) Pelo menos podiam pedir-lhe desculpa, não é?

PC - Mas ele, quem?

PS - Ele! Ele, Paraty!, como é evidente!

ADELINO CALDEIRA

Adelino Caldeira telefona a Pinto da Costa a dar-lhe conta da punição que será aplicada a Deco.

Adelino Caldeira (AC) - Olhe, não comente até segunda-feira se não eles apanham o meu informador!... mas deu três jogos!

Pinto da Costa (PC) - Está bem era o que calculava, não é?

AC - Não, calculava dois e estava com medo dos gajos, porque os gajos realmente são uns cabrões, pá! Agravaram em um até mandou proposta para o instrutor! Para nós é igual porque ele não jogar no Marítimo é igual mas é uma filha da putice destes gajos! Ainda gozaram lá com a situação, os cabrões!

DECO

Pinto da Costa fala com Deco e combina que o jogador deverá ameaçar que não joga na Selecção. Só assim poderá atemorizar a Federação para que diminua o castigo.

Pinto da Costa (PC) - Estou!

Deco (D) - Sim.

PC - Estou! É presidente! (...) Estou-te a falar pelo seguinte amanhã, como sabes nós metemos o recurso do teu castigo, não é? (...) e vai sair naquela coisa do “Pato”

D - Hum

PC - uma coisa a dizer do género de: “Pode estourar uma bomba ofendido com o que foi dito aquele termo de “indigno” e o castigo”.

D - Hum.

PC - e tal... “Pode estourar uma bomba, que é possível que o Deco, desgostoso com a perseguição ” – dentro daquilo que tu dissestes hoje!

D - Sim, sim

PC - “ofendido com a perseguição que lhe está a ser feita, se calhar, vai pedir dispensa de jogar no no na Selecção ou no Europeu” uma coisa assim, estás a perceber?

D - Hum, hum!

PC - que é como forma de pressão para

D - Hum, hum

PC - para o Conselho! Portanto, se amanhã alguém te perguntar se isso é verdade, se não é, o que pensas, tu dizes: “Desculpe, sobre isto não falo nem uma palavra! Na altura própria, eu eu direi ”

ANTERO HENRIQUES

Pinto da Costa recebe uma chamada de Antero Rodrigues, que já está a par da pressão exercida sobre a Federação e comenta a ameaça de Deco não jogar.

PC - Sim?

A - Presidente, bom dia!

PC - Então?

A - Esta do “Pato”, do Deco vou-lhe dizer uma coisa, pá!... eu sabia que o presidente era um génio mas esta!, foda-se!

PC - Como é que vem?

A - Vem espectacular, pá!

PC - Como é que está?

A - Acho que é uma chantagem fantástica!...

GILBERTO MADAÍL

Pinto da Costa recebe uma chamada de Gilberto Madaíl e faz a mesma ameaça. Diz que Deco admite abandonar a Selecção por causa do castigo da Liga.

Pinto da Costa (PC) - Estou?

Gilberto Madaíl (GM) - Como é que está o meu amigo?

PC - Óóó, oó!, então? ( )

PC - Olhe, eu preciso de falar com o meu amigo, mas tem tempo (...) é só depois do Real Madrid. O Deco vai tomar uma posição sobre a Selecção

GM - Ai é? Hum

PC - é! Porque aquilo é muito grave o que foi dito, nós já temos a informação de que quem escreveu aquilo foi o próprio presidente do Conselho de Disciplina e entendo que se não houver uma reparação, se ele é indigno, não deve jogar pela Selecção!... (...)

GM - Mas o presidente do Conselho de Disciplina já escreveu?

PC - escreveu no relatório no acórdão, quando foi castigado ( ) ele diz que se não houver uma reparação, seja de quem for, ou da Federação a desmarcar-se do

GM - Não, tem que ser!

PC - daquilo, ele ele, depois do Real Madrid vai pedir escusa da Selecção!

GM - Hum presidente, eu vou ver isso obrigadinho por me ter avisado!

VALENTIM LOUREIRO

A Federação diminui o castigo a Deco e Pinto da Costa telefona a Valentim Loureiro a dar-lhe conta disso.

PC - Estou, sr. Major! Como está?

VL - Então como é que vai o meu amigo? Está na Madeira, cara no bananal!

PC - Então mais uma mais uma vez desautorizados !

VL - Em quê?

PC - No Deco! Baixou de três para dois!

VL - Já se sabia, carago!

PC - Já se sabia? Mas é uma esses gajos não têm vergonha, caralho!, se tivessem vergonha.

VL - Ó Jorge!

PC - Eu vou eu vou sabe o que é que vou dizer?

VL - Ó você vai dizer!

PC - “É é pena que para ser juiz não seja preciso ter vergonha!”

VL - Ó não diga isso.

PC - Eles depois que me processem!

VL - Hum, não diga isso, pá! As várias instâncias podem sempre ( ) os tribunais é a mesma coisa! Você não viu agora o caso do Ritto e da Rita e dessa gente toda.

PC - Ó ó Major, o que é engraçado é que é sempre é sempre do

VL - Enquanto, enquanto lá estiver o Mortágua, é assim, pá!

PC - É e enquanto estiver o Cebola

VL - é a resposta é a resposta que eles podem dar, pá!

PC - É ?

VL - É!

PC - Então que “deiam”! Que “deiam”! ( )

PC - Major, Major!

VL - Diga!

PC - mas você, um dia vamos os três Eu, você e o Mortágua e depois o Mortágua conta-lhe coisas!

VL - Óptimo! Pronto ! Se ele me contar, pá sei lá! Sei lá disso! Mas quê?!, do Gomes da Silva?

PC - O pior de todos é um tal Cebola

VL - O Cebola... mas eu nem sei quem ele é o Cebola eu só conheço este gajo e um rapaz agora novo, que apareceu de Famalicão ou não sei quê!, pá!... substituiu um outro gajo que foi para Timor ou para o caralho, pá! De resto, nem os conheço, pá! Cebola ?!... Cebola, até cheira mal, pá! Cebola

PC - É de Coimbra! É um gajo de Coimbra

VL - Não sei quem é! E e e é quê? do Benfica?

PC - Não sei o que é! Sei que é o mais anti-Porto possível! Isto dito pelo Mortágua!

RELATÓRIO DO DELEGADO (Pinto da Costa)

“O delegado da Liga é um filho da puta. (...) Diz que o atingiu. Atirou ostensivamente a bola ao árbitro... E que o atingiu, o que não é verdade.”

POSIÇÃO DO ÁRBITRO (Pinto de Sousa)

“Já falámos. (...) Eu dá-me a ideia de que não vai utilizar a expressão agressão, de modo nenhum! (...) será o comportamento incorrecto.”

DECO AMEAÇA NÃO JOGAR

“Se calhar vai pedir dispensa de jogar no Europeu. (...) É uma forma de pressão para o Conselho. Portanto, se amanhã alguém te perguntar se isso é verdade, se não é, o que pensas, tu dizes: ‘Desculpe, sobre isso não falo nem um a palavra. Na altura própria eu... eu direi’.”

CASTIGO DE DECO DESCE DE TRÊS PARA DOIS JOGOS

“Mais uma vez desautorizados. (...) No Deco, baixou de três para dois! Sabe o que eu vou dizer? (...) É pena que para se ser juiz não seja preciso ter vergonha.”

NOTAS

DECO FOI PARA BARCELONA

Deco saiu do FC Porto no final da época 2003/2004, quando o clube se sagrou campeão europeu. Nos últimos anos, foi um dos mais rentáveis negócios dos azuis-e-brancos.

15 MILHÕES EM CAIXA

O acordo com o Barcelona, oficializado a 6 de Julho de 2004, estabeleceu o pagamento de 15 milhões e a aquisição dos direitos desportivos do jogador Ricardo Quaresma.

AGRESSÃO DAVA SUSPENSÃO

A agressão ao árbitro poderia ser punida com vários meses de suspensão. Dois anos antes, um caso semelhante tivera como interveniente João Pinto, durante o Mundial da Coreia/Japão.

JOGADOR FUNDAMENTAL

Na época 2003/2004 o FC Porto ganhou os mais importantes títulos nacionais e europeus. A participação de Deco era fundamental para alcançar os objectivos portistas.

JUIZ NEGA PEDIDOS

O juiz António Mortágua assegurou ontem ao CM que nem ele nem qualquer um dos seus dois filhos “tem ou teve qualquer contrato de trabalho” celebrado com a Câmara Municipal de Gondomar.

Tânia Laranjo

As conversas proibidas

Exclusivo Correio da Manhã - 18-04-2007
As escutas do ‘Apito Dourado’, anexas ao processo em investigação, mostram Pinto da Costa a conversar com frequência com Pinto de Sousa, combinando os árbitros que iriam dirigir os jogos da Taça.

Revelam também que o dirigente portista – que ontem completou 25 anos sobre a data em que pela primeira vez foi eleito presidente do FC Porto – sabia antecipadamente os castigos dos seus atletas (nas edições de domingo e segunda-feira o CM já tinha revelado que Pinto da Costa soube antecipadamente dos castigos a aplicar a Deco e Mourinho) e mostram também o presidente portista a conversar com Pinto de Sousa sobre as classificações dos árbitros.

Nem todas as escutas que hoje revelamos deram origem a inquéritos autónomos, mas todas foram usadas por Carlos Teixeira, o magistrado de Gondomar responsável pelo inquérito, para demonstrar o poder de Pinto da Costa no mundo do futebol.

Um poder relacionado com os 45 anos que leva como dirigente do FC Porto em várias modalidades, mas desde 1976 sempre ligado ao futebol, primeiro como chefe do departamento de futebol e depois como presidente do clube, a partir de 1982.

Só entre 1980 (ano do chamado ‘Verão Quente’ portista) e 1982 Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, que completará 70 anos no próximo dia 28 de Dezembro, esteve afastado do clube, mas não do futebol pois nesse período continuou a ter muitos contactos com jogadores e treinadores, nomeadamente José Maria Pedroto.

José António Pinto de Sousa, que aparece nas escutas como presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, era um dos vários amigos de juventude que também fizeram carreira no desporto. Esta é aliás uma das justificações que tem apresentado nos vários interrogatórios a que foi sujeito para justificar a aparente familiaridade com o dirigente.

VALENTIM PEDIU PARA SER OUVIDO

Valentim Loureiro foi ouvido na semana passada pelo Ministério Público do Porto, a seu pedido. O ex-presidente da Liga respondeu no âmbito da acusação relacionada com o jogo Naval 1.º de Maio-Chaves e que envolve também o árbitro Paulo Baptista, da 1.ª categoria.

A inquirição de Valentim Loureiro foi então requerida pela defesa que pretendeu demonstrar não ser verdadeira a tese do Ministério Público. Em causa está um contacto com o árbitro de Portalegre que Valentim assegura não ter como objectivo beneficiar o clube da Figueira da Foz. Recorde-se ainda que neste processo já foram arquivadas as suspeitas relativas a Aprígio Santos, presidente do Nacional, e também Júlio Mouco, ex-vogal da Comissão de Arbitragem.

ADELINO CALDEIRA
23/12/2003

Pinto da Costa recebe uma chamada de Adelino Caldeira, administrador da SAD azul-e-branca. Mais uma vez, o dirigente portista consegue saber por antecipação qual vai ser o castigo que a Comissão Disciplinar vai aplicar a um determinado atleta.

Pinto da Costa (PC) – Estou.

Adelino Caldeira (AC) – Estou! Presidente?

PC – Sim...

AC – Adelino Caldeira. Como está?

PC – Tudo bem?

AC – Tudo bem, está tudo bem. Olhe o que lhe vou dizer agora é para si mesmo!

PC – Sim, sim.

AC – Só pode dizer ao Mourinho, a mais ninguém! [...] É assim, o McCarthy vai ser despenalizado por um jogo! [...] Portanto, vai poder jogar no próximo. Mas atenção que não se pode saber porque a reunião só vai ser na terça-feira! Foi tomada a decisão hoje, de baixarem um jogo, mas a decisão formal, o acórdão, só pode ser redigido na terça-feira e formalmente é só na terça-feira que é decidido.

PC – Não, eu nem ao Mourinho digo.

AC – Pronto, é só para lhe dizer... se não eles podem voltar atrás [...] Terça-feira fica espantado, pronto!

PINTO DE SOUSA
03/02/2004

Pinto da Costa e Pinto de Sousa conversam sobre as incidências do jogo Sporting-FC Porto (onde se verificou depois o incidente da camisola alegadamente rasgada a Rui Jorge por José Mourinho) e falam de Lucílio Baptista, o árbitro que apitou aquele jogo. Pinto da Costa não poupa críticas ao juiz do jogo.

Pinto da Costa (PC) – O sr. Lucílio Baptista acha que é um penálti, porque é um vigarista!

Pinto de Sousa (PS) – É!

PC – Aliás. Estava tão comprometido.

PS – Sim...

PC – Estava tão comprometido,que os meus jogadores chamaram-lhe tudo, de filho da puta para cima e ele ria-se deles. Estás a perceber?

PS – Também não achas que ia expulsar aquela malta toda. Estragava o jogo, não é?

PC – Não, se ele estivesse de consciência tranquila, expulsava carago! Agora, foi de filho da puta para cima. ‘És um vigarista, és um filho da puta’!

PS – Até se vê na televisão.

PC – O gajo só se ria. Chamaram-lhe de tudo, filho da puta, gatuno, ladrão, vendido e o caralho. E o gajo ria-se.

PS – Ah, ah, ah!

PC – Um dia, quando eu encontrar esse gajo, vou dizer-lhe: ‘Você é um vigarista do caralho!’. Só quero ver se ele tem jogo hoje!

PC – Olha, da Taça vai ter, pá! Mas eu já te tinha avisado pá! Já estava montado isso há muito tempo

PC – Não, digo se vai ter domingo.

PC – Ah, para domingo vamos ver.

PC – Pode ser que o fodam na Figueira. Que ele tenha lá uma surpresa.


PINTO DE SOUSA

02/02/2004

Pinto da Costa e Pinto de Sousa comentam as incidências de um jogo Boavista-Guimarães arbitrado por Paulo Baptista. Depois, o presidente dos azuis-e- -brancos pede a Pinto de Sousa para falar com Luís Guilherme, de forma a combinarem as nomeações da jornada seguinte.

Pinto da Costa – Não! Eu disse-te a ti, os dois penáltis, são penáltis, não houve nenhum erro crasso [...] E apitar o Boavista, para um gajo que não esteja ali a pensar que o major é o presidente da Liga, é complicado... porque com aquelas palhaçadas todas, o gajo tem de os pôr na rua.

Pinto de Sousa – Pois é...

[...]

PC – Agora, tudo isto nasce de uma má nomeação do imbecil...

PS – É, sem dúvida!

PC – Olha, não te esqueças mas é de comunicar ao gajo, para ele não queimar nenhum [...] Devias pedir por escrito, para ficar.

PS – É, vou-lhe mandar por escrito. Vou-lhe telefonar e dizer [...] vou-lhe mandar por escrito, os jogos.

PC – Os jogos, esses quatro vão fazer esses jogos! Diz mesmo, esses jogos!

PS – Digo.

PC – É, assim ele já não tem desculpa.

PINTO DE SOUSA
02/01/2004

Pinto de Sousa, responsável pela arbitragem na Liga, pergunta a Pinto da Costa se ele aceita Jacinto Paixão para arbitrar um jogo da Taça. Antes disso, Pinto da Costa diz a Pinto de Sousa que deve alterar a classificação de um árbitro.

Pinto da Costa (PC) – Estou.

Pinto de Sousa (PS) – Estou, Zé!

PC – Já rectificaste a nota do homem?

PS – Eh, eh, eh!!!!! É pá, deixa lá o rapazinho em paz, coitadinho!

PC – Ah???

PS – 8... 8,4

PC – É uma boa nota!

PS – É uma boa nota!

PC – Pois foi, mas o observador tem de ser reclassificado!

PS – Olha, estou-te a telefonar pelo seguinte. Estou a pensar nomear o Jacinto Paixão para o Porto-Felgueiras. Não há inconveniente nenhum?

PC – Ah!

PS – Jacinto Paixão... Porto-Felgueiras! Não é nada de especial.

PC – Se entretanto ele não for nomeado para outro jogo [...] nomeado para a casa Pia!

PS – Eh, eh, eh!

PC – Mas não é de muito longe? [...]

PS – Não, coitado, precisa de fazer um joguito e como ainda fez poucos.

PC – Por mim, pode.

Poucas horas depois, Pinto de Sousa volta a telefonar a Pinto da Costa. Afinal, Jacinto Paixão não pode ser nomeado porque vai apitar um jogo do Estoril.

Pinto de Sousa (PS) – Olha, afinal, o Jacinto Paixão vai fazer agora o Estoril, no próximo dia 4 de Janeiro, eu não tinha reparado [...] De maneira que olha, como não é um jogo importante ia o Paulo Pereira, de Viana do Castelo.

Pinto da Costa (PC) – É fraquinho!

PS – É. Mas o jogo também não tem interesse nenhum...

PC – Sim, mas porque é que não pões um gajo do Porto?

PS – Pá, porque o Jorge Sousa vai fazer o Estoril- -Setúbal [...] O Paulo Costa e o Paulo Paraty não os nomeei já porque fizeram um jogo a semana passada. E o Martins dos Santos não se justificava para este jogo [...] e em segundo lugar vai fazer um jogo importante.

PC – Qual é o jogo?

PS – Talvez o Nacional, com o Leiria [...]

PC – Mas o Martins, para lá para baixo é bom. Que assim põe aquilo tudo em sentido.

PS – É, mas esse vai para Leiria.

PC – É, está bem.

PINTO DE SOUSA
30-11-2003

Dias antes do jogo FC Porto-Maia, um dos encontros que o procurador de Gondomar investigou, Pinto de Sousa perguntou a Pinto da Costa se estava de acordo com a nomeação do árbitro.

Pinto de Sousa (PS) – Houve um árbitro pá, que anda assim com problemas... que me pediu para eu jantar com ele e eu fui

Pinto da Costa (PC) – Quem é?

PS – O Nuno Almeida.

PC – Ah!

PS – Um do Algarve, pá [...] Estou a pensar nomeá-lo para o Porto-Maia... vês algum inconveniente?

PC – Não, acho bem! É bom árbitro. [...] Mas é um bocado difícil justificar um gajo de tão longe!

PS – É. mas é taça, é taça. [...] E ele pediu-me para ir o Paulo Januário como assistente.

PC – Está bem, ajuda.

PS – É. Ajuda um bocado.

PINTO DE SOUSA

01-03-2004

Pinto de Sousa liga a Pinto da Costa pedindo-lhe que escolhesse o árbitro para a meia-final da taça de Portugal. Pinto da Costa escolhe Bruno Paixão.

Pinto da Costa (PC) – Estou?

Pinto de Sousa (PS) – Estou. [...] Olá Jorge. Ouve lá, já tens alguma ideia para a final da taça?

PC – Para a final?

PS – Para a meia-final pá, para a meia-final.

PC – Ó pá, eu... queres internacional, né?

PS – É, mais ou menos pá.

PC – Acho que pode ser o Bruno!

PS – O Bruno?

PC – Não é?

PS – Hum...

PC – Não nos apita há muito...

PS – Deixa ver, o Bruno só tem um defeito...

PC – Qual é?

PS – É ter feito um jogo agora... Mas pode ser. Vamos ver.

NÚMEROS DO PROCESSO

A equipa de Maria José Morgado, que investiga as certidões do ‘Apito Dourado’, fez 65 interrogatórios, 38 diligências externas, 12 perícias e percorreu um total de 32 910 quilómetros.

BALANÇO NO SITE DA PGR

O último balanço no site da PGR, datado de 21 de Março, dá conta que a equipa de Maria José Morgado já findou 12 inquéritos: seis resultaram em acusação e seis foram arquivados.

TOMADA DE POSSE

Ontem, a magistrada que coordena as investigações a Pinto da Costa tomou posse como responsável pelo DIAP de Lisboa.

NO 'APITO' DESDE 2004

Em Dezembro de 2004, Pinto da Costa foi ouvido pela primeira vez no Tribunal de Gondomar, depois de várias peripécias, no âmbito do processo ‘Apito Dourado’.

'EU CAROLINA'

O livro autobiográfico de Carolina Salgado, que foi companheira de Pinto da Costa durante seis anos, acabou por ser o mote para reabrir alguns dos processos já arquivados do ‘Apito Dourado’.

Tânia Laranjo/Manuel Queiroz